Título: O brasileiro Tancredo Neves
Autor: Expedito Filho
Fonte: O Estado de São Paulo, 21/04/2005, Nacional, p. A10

Guardo, de Tancredo Neves, duas imagens. A primeira, mais antiga, é a do avô. Como todo menino vê o avô, o via como poderoso e mágico. Ao dividir meu carinho de neto com outro grande homem público mineiro, Tristão da Cunha, percebia a ação política como algo cotidiano, familiar. Tanto era assim que em certo momento pensei que todos os avós e pais eram homens públicos, e que em todos os lares se falava do Brasil e de seus problemas. A outra imagem que fica para sempre é a do líder Tancredo Neves. Quando me perguntam se ele foi conservador ou progressista, costumo responder que Tancredo foi brasileiro. Viveu toda a sua vida pensando no Brasil e em seu povo. Desde a sua militância inicial, como advogado dos ferroviários, depois vereador, deputado, ministro, senador, primeiro-ministro, governador de Minas e presidente eleito da República, Tancredo jamais abriu mão dos seus princípios e de suas convicções. Elas estiveram presentes em momentos críticos de nossa história e pareciam contrapor o líder conciliador ao intransigente patriota. A arte do entendimento, mais incorporada à sua imagem, dependia fundamentalmente da coragem pessoal que sempre exercitou.

Foi assim quando se colocou contra a renúncia do presidente Vargas na reunião do Ministério e, como ministro da Justiça, se dispôs até dar voz de prisão aos rebelados. Foi também uma das três pessoas, o único político, a levar JK ao avião, para a derradeira viagem ao exílio.

Líder indignado de Jango, deixou perplexo o Congresso proferindo discurso violento contra a declaração de vacância da Presidência. Da mesma forma, foi a intransigência dos princípios que norteou seu voto, praticamente solitário na bancada do PSD, contra a ascensão do Marechal Castelo Branco à Presidência.

Dizia doutor Tancredo que a política é o espaço da construção, do exercício das diferenças, para que se pudessem evitar confrontos e rupturas. Mas, para ele, isso jamais significou ceder no fundamental.

Não quero relembrar seus momentos finais. Apenas reafirmar que o presidente suportou a doença movido por profundo senso de responsabilidade para com a Nação. Ele sabia muito bem dos riscos que corria. Naquele momento não era a própria vida que o preocupava, mas a vida do Estado democrático, pelo qual vivera e lutara.

Sua herança está viva em plenitude. O País amadureceu, fortaleceu suas instituições e avançou no campo democrático. Temos, no entanto, outra transição a ser consumada. É imperativo que saibamos ter desprendimento e grandeza suficientes para transformar o legado da democracia conquistada em instrumento efetivo para o combate às desigualdades que nos envergonham e fragilizam. Precisamos recuperar a utopia do presidente Tancredo, que definia a Nação como as pessoas se sobrepondo às razões da economia. Com grande atualidade, ele alertava que toda prosperidade será falsa enquanto houver no País cidadãos sem trabalho, sem teto, sem letras e sem pão.

* Aécio Neves é governador de Minas Gerais