Título: Programa nuclear do Brasil não é ameaça, diz Condoleezza
Autor: Paulo Sotero
Fonte: O Estado de São Paulo, 22/04/2005, Nacional, p. A5

A secretária de Estado dos Estados Unidos, Condoleezza Rice, que visitará na próxima semana o Brasil, disse ontem que Washington tem confiança em que o Brasil utilizará a energia nuclear para fins pacíficos e não vê nenhuma razão pela qual o País devesse deixar de ter acesso à energia nuclear. "Não me preocupo com a possibilidade de o Brasil vir a produzir uma arma nuclear", afirmou em entrevista à rádio Echo Moskvy, de Moscou. "O Brasil busca poder nuclear civil." Embora seja a reafirmação de posição conhecida dos EUA, manifestada no ano passado pelo então secretário de Estado Colin Powell, a declaração reflete apenas um aspecto da visão americana sobre o engajamento do Brasil na questão nuclear. Segundo uma alta fonte do governo, artigos recentes publicados na imprensa dos EUA sobre a expectativa de que o Brasil tome iniciativas na área de não proliferação e lidere pelo exemplo, especialmente na questão do enriquecimento de urânio, traduzem posições da Casa Branca. Num dos artigos, o ex-secretário de Estado adjunto para América Latina Bernard Aronson sugeriu que o País abandone o programa de enriquecimento de urânio em Resende, pois sua continuação sabotaria esforços de França, Grã-Bretanha e Alemanha para convencer o Irã a desistir de seu programa, de cuja finalidade europeus e americanos suspeitam.

Embora esta não seja a posição oficial dos EUA, como sugere a declaração de Condoleezza, a reação do governo brasileiro a Aronson - uma carta do embaixador Robert Abdenur ao Wall Street Journal - não foi bem recebida. De acordo com fonte oficial, os EUA não farão pressão pública sobre o País, pois sabem que isso seria contraproducente, mas continuarão a instar o governo Lula a tomar iniciativas que reforcem a imagem do Brasil como um país de conduta exemplar na área da não proliferação, especialmente durante a reunião de revisão do Tratado de Não Proliferação Nuclear. A conferência será presidida pelo embaixador brasileiro Sérgio Duarte, em maio, na sede da ONU, em Nova York.