Título: Para apostador, palpite tem inspiração mágica
Autor: Laura Diniz
Fonte: O Estado de São Paulo, 22/04/2005, Metrópole, p. C1

A magia que o apostador vê no jogo do bicho é o que alimenta e destrói a atividade. O jogador se sente imbuído de uma capacidade especial de captar, nos menores detalhes do cotidiano, a indicação do bicho que será sorteado. "Só se joga com palpite e, para funcionar, ele tem que vir de algo extraordinário, especial, do mundo dos sonhos", explica a antropóloga Elena Soarez, autora de um livro sobre o tema.

Um vendedor que era jogador compulsivo de bicho conta que já tirou palpite até de número de túmulo durante um enterro. "Se via dois carros com placa igual em pouco tempo, também jogava. Sonho sempre dá palpite e, para o jogador, vale por três dias. Quando eu estava no auge da compulsão, até perguntava o sonho dos outros", contou o vendedor.

No dia da entrevista ao Estado, um dono de banca teve a intuição de jogar no número 2857, jacaré. "Essas coisas funcionam. No dia 11 de setembro de 2001, deu duas vezes o 66, número da besta", disse ele, que não ganhou nada com a aposta no jacaré.

Mas esse universo místico que tanto encanta o jogador foi o que gerou a proibição da atividade, segundo o professor de Direito Penal Pedro Lazarini. "Por ser tão envolvente, o jogo era visto como um problema de moral, perigoso para a sociedade", afirmou. O jurista Bento de Faria referia-se a ele como "triste criação nacional", "lepra incurável" e "prática imoral, que degrada, desconceitua, avilta e empobrece".

Segundo a antropóloga, que é favorável à descriminalização, "resta ver se, legalizando, o jogo não perderia o encanto. Liberado e, no computador, seria como qualquer outra loteria".