Título: Safra difícil longe do fim
Autor: José Roberto M. de Barros e Glauco Carvalho
Fonte: O Estado de São Paulo, 23/04/2005, Economia, p. B2

Em outubro de 2004, em artigo publicado neste jornal, alertamos para o cenário adverso esperado para a safra 2004-2005. Para isso destacamos cinco pontos: custo de produção, preços agrícolas, financiamento, protecionismo e golpes comerciais e infra-estrutura. No comércio mundial continuamos sujeitos a golpes, como ficou evidente no bloqueio russo ao setor brasileiro de carnes, no final do ano passado. A infra-estrutura continua sendo um gargalo.

Os custos de produção continuam elevados e a recente revisão para cima das perspectivas de preços do petróleo, somada à manutenção do frete marítimo em patamar alto, prejudica a agricultura.

No caso dos preços agrícolas, houve importante melhoria em relação ao cenário apresentado no final do ano passado, em razão do clima seco, que provocou sérias perdas para os agricultores da Região Sul. A última previsão da Conab, feita em março deste ano, foi de uma queda na produção de soja no Rio Grande do Sul de 67% em relação à estimativa inicial. Para o milho a queda estimada foi de 56%. No Paraná também houve perdas relevantes. No conjunto do Brasil, a previsão de safra de grãos recuou de 131 milhões de toneladas para 118,6 milhões de toneladas, o que acabou se refletindo nas cotações agrícolas. O preço internacional da soja aumentou 18% de fevereiro para março, movimento que valeu também para os demais grãos. Os agricultores do Centro-Oeste acabaram se beneficiando da estiagem ocorrida no Sul do País e deveriam aproveitar o atual momento de recuperação de preços para comercializar parte da produção.

No âmbito macroeconômico, destacamos que a balança comercial do agronegócio, apesar de manter um saldo bastante robusto, projetado por nós em US$ 33 bilhões, não deverá crescer tanto em receita como vinha ocorrendo nos anos anteriores. Além disso, a âncora verde chegou a seu fim. A pressão dos preços dos alimentos sobre os índices de inflação, recentemente divulgados, exemplifica essa situação.

Em síntese, a safra difícil está longe de terminar. A taxa de juros segue muito alta, o que dificulta o crédito a juros livres, e a rentabilidade das lavouras continua baixa e, em inúmeros casos, negativa. A expectativa quanto ao comportamento da taxa de câmbio piorou. No início de outubro a previsão de mercado indicava um câmbio médio, para 2005, de R$ 3,06/dólar, ante a projeção atual de R$ 2,73/dólar. A situação dos produtores da Região Sul se encontra extremamente complicada, com baixa produtividade e altos custos de produção. Finalmente, existem incertezas quanto ao tamanho da safra de inverno.

O momento adverso vivido pela agricultura brasileira se reflete diretamente na redução dos investimentos. As vendas internas de máquinas agrícolas no primeiro bimestre de 2005 se encontram 28,5% abaixo do registrado em igual período do ano passado. A produção de bens de capital agrícolas, medida pelo IBGE, recuou 20% em janeiro sobre o mesmo mês do ano passado. Isso após um crescimento de 44% nos três últimos anos.

Enquanto o segmento de grãos, no Brasil, passa por sérias dificuldades, a cafeicultura vive um cenário oposto. Entre julho de 2004 e março deste ano, os preços internacionais já subiram 44%. Em relação a março do ano passado, a alta foi de 73%. Sem dúvida é um momento oportuno para a comercialização de parte da safra, seja desovando os estoques ou utilizando outros mecanismos de mercado, como CPR ou mercado futuro. Vale lembrar o que aconteceu recentemente no mercado de soja, quando muitos agricultores deixaram de vender o produto a mais de R$ 50 a saca.

Não estamos dizendo que o mesmo poderá acontecer com o café, cuja alta é sustentada pelo quadro de oferta e demanda. Sabemos, todavia, que o movimento de compra e venda de fundos mexe significativamente com esse mercado, gerando alta volatilidade. Também é sabido que os tratos culturais melhoraram e o plantio se expandiu de forma substancial neste ano. No sul de Minas, por exemplo, a área de plantio deve aumentar 93% em relação ao ano passado. Para o Brasil o aumento está previsto em 18%, o que equivale a uma produção adicional de pelo menos 4 milhões de sacas, considerando a produtividade média dos últimos dois anos.

Em nossa opinião, essa alta de preços deveria ser encarada como um momento para recuperar a rentabilidade dessa lavoura e fazer alguns investimentos na propriedade, sobretudo em infra-estrutura, para a melhoria da qualidade do café.