Título: A crise sino-japonesa
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 24/04/2005, Editoriais, p. A3

Determinados por interesses econômicos e políticos, cooperação e conflitos entre países e regiões são os marcos definidores - não necessariamente excludentes - das relações internacionais. Desse ângulo, as atuais tensões entre a China e o Japão configuram um caso de manual. A sua face mais evidente - e explosiva - são as manifestações de rua que têm reunido dezenas de milhares de chineses nas principais cidades do país. E, não obstante, não são muitos os países que dependem tanto um do outro quanto esses. Estimuladas ou controladas pelo governo (que as autorizou em Xangai, por exemplo, e, por associações óbvias, lhes fechou a Praça da Paz Celestial, em Pequim), as manifestações foram desencadeadas a pretexto do mais recente episódio da conhecida recusa japonesa em imitar a Alemanha no reconhecimento e expiação de suas atrocidades passadas. Na verdade, servem como suporte aos propósitos estratégicos da China de subtrair do Japão a hegemonia econômica na Ásia e, dos Estados Unidos, a influência política.

Embora a maioria dos professores japoneses defenda que se ensine a história dos crimes do exército imperial no período da conquista colonial e durante a 2.ª Guerra, sobretudo na China, cuja ocupação, iniciada em 1931, deixou 20 milhões de mortos, a maioria dos livros didáticos os omitem ou mascaram. O assunto é tabu - e não só nas escolas. Um exemplo clássico foi o corte das cenas (reais) de experimentos à Mengele em Auschwitz, conduzidos por médicos japoneses na China, do filme O último imperador, de Bernardo Bertolucci, ao estrear em Tóquio, em 1987.

O que instigou os distúrbios antijaponeses - e levou as relações entre os dois Estados ao ponto mais baixo desde o reatamento de 1972 - foi o texto escolar que reduz a "incidente" o infame "estupro de Nanquim", em 1937, quando cerca de 200 mil civis foram mortos pelos invasores em dias. A publicação, oficialmente avalizada, é vista como parte do ressurgimento do nacionalismo militar nipônico - da mesma forma que as visitas anuais do primeiro-ministro Junichiro Koizumi ao santuário de Yasukuni, onde estão enterrados criminosos de guerra.

Mais do que o passado, o que inquieta Pequim é o futuro. O governo chinês teme que sejam abolidas da Constituição da Paz, imposta por Washington a Tóquio no pós-guerra, as cláusulas antimilitaristas, desatando uma corrida armamentista onerosa para a China (cujo orçamento militar acaba de atingir pela primeira vez 10% do PIB). Além disso, há o envolvimento japonês com o problema de Taiwan.

Depois que o presidente Hu Jintao fez aprovar em lei o uso da força se a ilha buscar a independência, o Japão acrescentou Taiwan aos temas abrangidos pelo tratado de defesa nipo-americano, com o que deu novo escopo ao seu alinhamento com os EUA. Previsivelmente, a China procura bloquear a aspiração japonesa a uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU.

O Japão, disse o ministro do Exterior chinês, não tem "credenciais morais" para tal. O seu homólogo japonês, depois da depredação de instalações diplomáticas japonesas, retrucou que a China é "um país assustador". Outra fonte de atrito são as reservas de gás e petróleo em águas disputadas por Tóquio e Pequim. A China é o segundo maior consumidor mundial de óleo. O Japão, o terceiro. Ambos são colossais importadores.

Os japoneses sempre se recusaram a indenizar as vítimas chinesas de suas armas químicas e dos seus testes biológicos, bem como as mulheres escravizadas para o "conforto" das suas tropas. Pagar equivaleria a assumir as culpas. Em compensação, ao longo dos últimos 25 anos doaram ou emprestaram à China, a juros simbólicos, ¥ 3 trilhões. Graças a isso, o país modernizou parte de sua infra-estrutura física. Koizumi fez saber que essa fonte vai secar. Mas, de investimentos diretos na economia chinesa, os japoneses tinham US$ 46 bilhões em 2004.

Já o que impediu a economia japonesa de afundar de vez - o país mal vem conseguindo crescer 1% ao ano - foram as crescentes exportações para a China. Calculou-se que, se os chineses boicotassem as importações do Japão durante seis meses, metade dos japoneses perderia o emprego. Em 2004, alimentado pelas compras chinesas, o comércio entre os dois países subiu formidáveis 27%, a US$ 168 bilhões. Deve alcançar US$ 206 bilhões este ano. A China é o maior parceiro do Japão e este, o terceiro maior da China. O comércio, costuma se dizer, é o outro nome da paz. Servirá também para prevenir uma guerra fria sino-japonesa?

Aparentemente sim, dado o pedido de desculpas do primeiro-ministro Junichiro Koizumi e seu encontro sábado com o presidente Hu Jintao.