Título: Avião da FAB recebeu autorização para pousar
Autor: Lourival Sant'Anna
Fonte: O Estado de São Paulo, 24/04/2005, Internacional, p. A14
Um avião da Força Aérea Brasileira permaneceu de prontidão, ontem à noite, em Porto Velho (RO), a duas horas de vôo de Quito, esperando a determinação do Itamaraty para buscar o presidente deposto do Equador Lucio Gutiérrez. Oficiais da FAB integrantes da operação em Brasília e em Rondônia receberam a informação sigilosa de que o salvo-conduto para a saída de Gutiérrez já teria sido concedido ontem mesmo, depois de intensas negociações entre as autoridades diplomáticas brasileiras e equatorianas. O horário de saída do avião brasileiro para Quito ainda não havia sido determinado, já que faltava chegar à sede da Embaixada do Brasil o documento oficial com o salvo-conduto.
O diretor da Corporação Aeroporto de Quito, Diego Pachel, confirmou que a FAB tinha pedido à Aviação Civil do Equador que autorizasse o pouso, na capital equatoriana ou em Guayaquil, do avião brasileiro que deverá transportar Gutiérrez. Pachel disse que a solicitação brasileira foi aceita e a permissão tem validade de quatro dias (expira amanhã). Mas acrescentou que o plano de vôo ainda não havia chegado. O plano precisa ser apresentado à Aviação Civil pelo menos três horas antes do horário previsto para a chegada do avião.
SALVO CONDUTO
Oficialmente, o Itamaraty não confirma que o salvo-conduto tenha sido realmente concedido pelo governo equatoriano. De acordo com a assessoria do Ministério das Relações Exteriores, não estão sendo mais divulgadas informações sobre esse assunto para garantir a segurança da embaixada brasileira em Quito e da residência do embaixador Sérgio Florencio, onde Gutiérrez está refugiado.
A maior preocupação do Itamaraty, ontem, era com a segurança para a saída do ex-presidente equatoriano da residência do embaixador brasileiro. Desde o pedido de asilo de Gutiérrez, manifestantes têm se concentrado em frente à residência protestando contra a decisão do Brasil de conceder o asilo para o presidente deposto e, especialmente, contra a possibilidade de Gutiérrez sair do país sem ser levado à Justiça para responder às acusações de corrupção.
As autoridades brasileiras temiam que o vazamento de qualquer informação sobre o horário e o esquema para a retirada de Gutiérrez de Quito pudesse impossibilitar o processo e ainda atrair a fúria dos equatorianos contra a embaixada e a casa do embaixador, provocando algum tipo de ação mais violenta. Segundo algumas fontes, a viagem do ex-presidente poderia ocorrer na madrugada de hoje, num horário com menores riscos de protestos.
O governo brasileiro começou a negociar a saída já na quarta-feira, logo que Gutiérrez foi destituído pelo Congresso e pediu asilo à embaixada. O ex-chefe de Estado solicitou posteriormente asilo territorial ao Brasil, que foi concedido pelo governo brasileiro, por decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Assim, Gutiérrez e sua família poderão residir no País por períodos renováveis de dois anos, sob a condição de que se mantenham afastados de atividades políticas.
Apesar disso, Gutiérrez conversou sexta-feira pelo telefone com partidários, aos quais afirmou que sua destituição foi inconstitucional. A conversa foi gravada pela imprensa e divulgada por emissoras de rádio e TV. Depois disso, a embaixada brasileira teria começado a monitorar Gutiérrez para evitar que ele faça declaração à imprensa, o que poderia levá-lo a perder sua condição de asilado político.