Título: Livros fazem da História propaganda
Autor: AFP, Reuters e AP
Fonte: O Estado de São Paulo, 24/04/2004, Internacional, p. A18

Numa região onde a história contin ua não resolvida, a disputa sobre o passado é freqüentemente uma disputa sobre o futuro. Raras vezes ela se cristaliza com tanta perfeição como na semana passada, nos maiores protestos antijaponeses na China desde que os dois países restabeleceram relações em 1972. Por estranho que pareça, ao menos para os ocidentais, o foco da fúria chinesa foi a aprovação de livros didáticos de história para o curso fundamental no Japão que, para os críticos, omitem a agressão japonesa na Ásia. Essa não foi a única tempestade sobre livros nem será a última. Não só as autoridades chinesas estão apoiando novos protestos, como um pouco antes das marchas da semana passada o Japão fez objeções à educação patriótica da China, que estaria alimentando sentimentos antijaponeses, e a Coréia do Sul recriminou os livros japoneses por supostamente tentarem justificar um passado colonial.

Embora ainda possa levar décadas para os três países concordarem sobre a história, há muito que eles compartilham um traço comum que ajuda a explicar como as revisões podem revolver emoções profundas. Os alunos aprendem história em livros aprovados pelos governos que são, especialmente com o nacionalismo crescente, ferramentas úteis para moldar identidades nacionais. Como esses livros requerem o imprimatur do governo central, são tomados como um reflexo das visões dos atuais líderes.

"Nesses três países, há uma tendência a propagandizar a história," disse Jee Soo-gol, professor de educação histórica na Universidade Nacional de Kongju na Coréia do Sul. A fúria extraordinária para com o Japão decorre não só de suas atrocidades no século 20, mas do que seus vizinhos descrevem como sua crescente tentativa de se esquivar dos delitos. E têm alguma razão. Um olhar nos novos livros escolares e nos de dois ciclos anteriores, 2002 e 1997, revela um inconfundível retrocesso sobre a maioria dos pontos contenciosos.

O exemplo mais clamoroso cerca a questão das "mulheres confortadoras", eufemismo para as mulheres, em sua maioria asiáticas, forçadas à servidão sexual por autoridades japonesas durante a 2.ª Guerra. Em 1997, todos os sete livros incluíam passagens sobre elas, explicando, por exemplo, que o Japão "levou jovens coreanas e outras como mulheres confortadoras aos campos de batalha." Em 2002, o número caiu para três de oito livros. Desta vez, somente dois de oito admitem as mulheres confortadoras, e nenhum usa esse termo.

Durante a guerra, Tóquio enfrentou uma grave escassez de mão-de-obra e obrigou centenas de milhares de asiáticos a trabalharem no Japão. Em 1997, o livro publicado pela Tokyo Shoseki e atualmente usado por 52% de todas as escolas fundamentais afirmava que "700 mil pessoas foram levadas à força para o Japão entre 1939 e 1945" como trabalhadores. A edição de 2002 omite qualquer número e diz: "Para enfrentar uma escassez de mão-de-obra, Japão e Alemanha trouxeram à força pessoas de fora e as fizeram trabalhar em minas e fábricas." A edição mais recente corta "à força" e diz apenas: "Houve coreanos e chineses que foram trazidos para o Japão e obrigados a trabalhar contra sua vontade."

Nobukatsu Fujioka, o fundador da Sociedade Japonesa para a Reforma dos Livros de História, disse que as obras centradas nos alegados erros do Japão durante a guerra não eram saudáveis para os estudantes. "Estabeleci esta associação por considerar um problema sério o fato de que esta educação masoquista está fazendo a juventude perder seu orgulho e a confiança em seu próprio país," disse Fujioka. "As palavras mulheres confortadoras de guerra desapareceram de livros escolares nos últimos dez anos", acrescentou. "Um fruto de nosso movimento é que o fato falso foi expelido." As mudanças estão afinadas com uma forte guinada para a direita no Japão.

"Seria um problema se os livros afirmassem algo que o governo não afirma, ou se eles fossem além dos limites do que o governo afirma", disse recentemente Shinzo Abe, um dos políticos mais populares do Japão. "É natural que os livros sigam a linha do governo."

Dada a vigilância e o histórico democrático comparativamente longo do Japão, os livros daqui são mais equilibrados talvez que outros na região. Os da China, por exemplo, ensinam que a resistência chinesa, e não os EUA, derrotou o Japão na guerra; eles nada dizem sobre o Grande Salto para a Frente do pós-guerra, em que cerca de 30 milhões de chineses morreram por causa das políticas agrárias equivocadas de Mao Tsé-tung.

Na Coréia do Sul, que se democratizou no fim dos anos 1980, os livros melhoraram. embora alguns tabus permaneçam, como qualquer menção a coreanos que colaboraram com colonizadores japoneses. Shin Ju-baek, um especialista em educação da Universidade Nacional de Seul, disse que as descrições do período colonial costumavam focar apenas a exploração japonesa e a resistência coreana, ignorando o papel do colonialismo japonês na modernização da Coréia.