Título: 'Papa deve reconquistar a Europa'
Autor: José Maria Mayrink
Fonte: O Estado de São Paulo, 24/04/2005, Vida&, p. A20
Na opinião do frade americano Richard Ryscavage, o papa Bento XVI deverá concentrar suas forças na "reconquista" da Europa, o que implicará deixar de lado regiões predominantemente católicas, como a América Latina. "A União Européia elaborou sua Constituição no ano passado e não colocou nem sequer uma linha sobre as raízes cristãs do continente. Deixou a religião em segundo plano", argumenta o frade, professor da Universidade de Fairfield, em Connecticut. Entusiasta do novo papa, frei Richard diz ser importante que Bento XVI mantenha o conservadorismo na Santa Sé. O raciocínio é simples: para convencer o "inflexível" papa a avançar em certas questões, os católicos terão de argumentar bastante e ter muita clareza do que querem. "Vai forçar as pessoas a pensar nos seus valores. Isso é um ótimo exercício. Os liberais são vagos, querem todas as mudanças aqui e agora."
Católico num país majoritariamente protestante, frei Richard Ryscavage tem 60 anos e pertence à Ordem dos Jesuítas. É especialista em migração. Dirige desde 1997 nos Estados Unidos o Serviço dos Jesuítas para Refugiados.
O frade lembra que se surpreendeu com o cardeal Joseph Ratzinger ao conhecê-lo, no final dos anos 1990, no Vaticano. "Eu esperava alguém arrogante e frio. Ele foi justamente o oposto comigo: caloroso, humilde e educado. Bento vai surpreender o mundo."
De qualquer forma, diz ele, é compreensível a relativa frieza com que o alemão foi recebido: "Ratzinger sempre foi conhecido. Ao contrário de Karol Wojtyla, uma completa surpresa em 1978". Frei Richard conversou com o Estado por telefone, de sua sala na Universidade de Fairfield.
Como o senhor recebeu a eleição do novo papa?
Fiquei muito feliz. Dou-lhe minhas boas-vindas. É o primeiro teólogo a se tornar papa. Os papas da era moderna foram em sua maioria diplomatas ou canonistas. João Paulo II era filósofo. Ratzinger é um teólogo renomado e vai levar um realismo teológico mais forte aos ensinamentos da Igreja. Suas pregações serão extraordinariamente ricas.
De que forma o senhor acredita que ele conduzirá a Igreja?
Creio que seu pontificado será bastante voltado para a Europa. É claro que é preciso se preocupar com a América Latina, a África, a Ásia e até com os EUA, mas essa é uma missão que pode ficar para o próximo papa. Bento agora deve se preocupar com o fato de que está perdendo a Europa. Foi um choque quando a União Européia elaborou sua Constituição no ano passado e não colocou nem sequer uma linha sobre as raízes cristãs do continente. Mostrou um secularismo extremo. Por ser europeu, creio que Bento XVI vai se dedicar a esse problema com firmeza. Será importante ter diálogo direto com líderes do continente para pressionar a Europa a reconhecer a religião. Talvez o primeiro passo seja em seu país, a Alemanha, que sediará em agosto as comemorações do Dia Mundial da Juventude. Bento deverá aproveitar a oportunidade para mudar a mente dos jovens europeus.
Ele não pode cuidar de todos os continentes ao mesmo tempo?
Há uma seqüência. A necessidade urgente no momento é olhar para a Europa. E não é só catolicismo que perde com o secularismo, os imigrantes muçulmanos também, todas as religiões. A Europa está virando as costas para a religião.
Bento XVI será tão conservador quanto João Paulo II em questões como aborto e sexualidade?
Quando Ratzinger era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cabia a ele fazer valer a doutrina católica. Agora o papel é outro, o de pastor. A doutrina não vai mudar, mas passará a ser aplicada de outra maneira. Quando começar a olhar as pessoas com a preocupação de um pastor, ele vai entender os problemas que elas enfrentam em relação à sexualidade, por exemplo. O trabalho muda a pessoa. Seu lado pastoral vai emergir.
Não seria melhor um liberal?
É melhor que tenhamos um papa conservador, como Bento, porque vai forçar as pessoas a pensar seus valores. Os fiéis vão ter de selecionar os temas em relação aos quais acreditam que a Igreja deva ser mais liberal, terão de ter prioridades, depois vão ter de discutir e argumentar. Como será uma coisa difícil, as pessoas darão valor às mudanças e terão uma visão muito mais clara dos seus valores. Isso é um ótimo exercício. Os liberais são vagos demais, querem todas as mudanças aqui e agora, sem nenhuma prioridade.
O papa Bento XVI poderá adotar medidas liberais?
Ele vai ouvir o que a comunidade católica tem a dizer. Há muito espaço para mudança na Igreja. E o papa sabe disso.
O cardeal Ratzinger dizia que só a fé católica salva. Ele diminuirá o diálogo com outras religiões?
Bento realmente tem uma posição muito firme sobre sua fé. Não chama nenhuma religião de "igreja irmã". Isso é positivo, porque ninguém vai poder acusá-lo de fraco. Se você sabe quem você é como Igreja, torna-se capaz de saber o que é essencial, não se abre indiscriminadamente a qualquer religião. Por isso, quando o Vaticano estender a mão a uma religião, não será apenas um gesto, mas um fato muito significativo.
O papa ainda tem poder?
Sim, mas de uma forma bastante particular. É a única figura moral reconhecida no mundo inteiro. Que outro líder existe? Ele tem um papel importante não só para os católicos. Isso acontece muito nos EUA. Mesmo que as pessoas não sigam o que prega, ele tem uma influência moral gigantesca. É uma estranha contradição.
O senhor esperava que Ratzinger fosse eleito papa?
Não esperava, talvez por causa de todos essas acusações que fazem. Mas ninguém o conhece como papa. Na minha opinião, ele vai surpreender. E positivamente.