Título: Condoleezza pede esforço contra marcha à ré na América Latina
Autor: Denise Chrispim Marin Expedito Filho
Fonte: O Estado de São Paulo, 28/04/2005, Nacional, p. A4

A secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, fez um alerta às democracias da América Latina ontem, para que não dêem "marcha à ré" na consolidação de suas instituições, numa clara referência ao governo do presidente venezuelano, Hugo Chávez. Em seu discurso, ela deixou claro o interesse de atrair o Brasil para a política externa dos Estados Unidos de ampliar a democracia em todo o mundo. Os dois países "podem conseguir muito como parceiros em matéria de segurança, de prosperidade e de defesa da liberdade e da dignidade humana", destacou várias vezes. "A história do avanço da democracia leva a mensagem aos países que não a consolidaram. Não percam a esperança, não se desanimem e, sobretudo, não dêem marcha à ré agora", advertiu ela, em palestra sobre a política externa americana no Memorial JK. "Grandes democracias multiétnicas, como os EUA e o Brasil, a Índia e a África do Sul, precisam trabalhar juntas para chegar a um equilíbrio de forças que favoreça a liberdade. O surgimento de nações democráticas, como essas que mencionei, não custam nada para ninguém e redundam em benefícios para todo o mundo."

Condoleezza, que comanda há três meses o Departamento de Estado, destacou o conceito do presidente George W. de divisão do mundo entre os que estão "do lado certo" - referência a países democráticos - e os povos que "necessitam de ajuda" para a consolidação de suas instituições. Trata-se de uma leitura mais apurada, e pertinente à América Latina em especial, da declaração de Bush na Assembléia-Geral das Nações Unidas em novembro de 2001. Dois meses depois do ataque terrorista a Nova York e Washington, ele avisara o mundo que "quem não é amigo é inimigo".

Ela elogiou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, dizendo que é um "homem de princípios" e destacando seu passado pobre e de sindicalista como exemplo da mobilidade social no Brasil e o esforço do País pela democratização. Na mesma linha, assinalou o avanço democrático, a desestatização e a conversão dos países da América Latina em economias de mercado a partir dos anos 80.

PARCEIROS

Apesar disso, insistiu em que, se Brasil e EUA querem realmente atuar juntos para difundir a democracia, "têm de pensar e agir como parceiros". E disse que os EUA rejeitam como "relíquia do passado" a visão que defende a rivalidade. "Em toda a América Latina, foram patriotas impacientes que tiraram ladrões, assassinos e ditadores do poder. Foram patriotas impacientes que puseram fim às economias estatizadas que empobreceram toda a região, e foram patriotas impacientes que redefiniram o que era possível fazer na América Latina."

Ao abrir espaço para a platéia, perguntaram-lhe sobre o suposto pedido americano de que o Brasil intermediasse suas relações com a Venezuela. Ela respondeu que entre países do continente não há necessidade de mediadores e mais uma vez tentou envolver o governo brasileiro no objetivo de refrear seu aliado Chávez.

Condoleezza destacou que não são apenas os EUA que têm de se preocupar com iniciativas de Chávez que ameaçam a liberdade de imprensa e do Judiciário. Ela reiterou a necessidade de Brasília e Washington trabalharem juntos na construção de uma "agenda positiva" para a América Latina, uma vez que "compartilham a noção de que a democracia é a única forma de governo" possível.

"É questão de saber o que acontecerá com o processo democrático na Venezuela. Haverá imprensa livre? Como o Congresso será tratado? O que vai acontecer com os que criticam o governo?", argumentou ela. "Qualquer líder latino-americano que aceita o processo democrático e a necessidade de governar democraticamente, que aceita que a prosperidade econômica chegue a todos os seus povos e aceita o livre comércio será um parceiro dos EUA", acrescentou, num claro chamado ao governo Lula que, diante das tensões entre a Venezuela e os EUA em março, deu dois fortes respaldos políticos a Chávez.