Título: Blair não teme efeito Iraque no voto
Autor: Jackie Ashley
Fonte: O Estado de São Paulo, 01/05/2005, Internacional, p. A16

LONDRES - A campanha está a todo vapor, e também o primeiro-ministro Tony Blair, com um vendaval de argumentos, braços se agitando, dedos apontando. Quando chego para conversar, ele já deu uma longa entrevista coletiva pela manhã, foi interrogado durante meia hora por desconfiados ouvintes de uma emissora de rádio e passou por outro par de entrevistas no rádio e na TV. Falou do Iraque, do crime, da imigração, dos impostos e da previdência, das políticas em favor da família e, inevitavelmente, da confiança. Enfim, apenas uma manhã comum de campanha para a eleição parlamentar desta quinta-feira, na qual Blair disputa um terceiro mandato.

Agora ele vai a Bristol para outro evento da campanha Tony Blair-Gordon Brown, na qual os dois trocam elogios com exagero quase constrangedor: Brown, ministro das Finanças, atribui muito da revitalização evidente nos arredores de Bristol à liderança de Blair; este mais uma vez descreve Brown como o melhor ministro das Finanças que o país teve em 100 anos. É um arroubo bastante ensaiado.

Durante a viagem de trem, há duas perguntas fundamentais que quero fazer ao primeiro-ministro: como esperar que as pessoas votem nele depois do Iraque e quando ele vai ceder o lugar a Brown.

Quanto ao Iraque, ele aceitou o fato de que algumas pessoas nunca irão perdoá-lo por ter levado a Grã-Bretanha à guerra: "Cheguei à conclusão de que, para as pessoas contrárias à guerra, quanto mais exponho meu ponto de vista, mais elas se irritam." Parece uma desculpa genial para nunca mais falar nisso de novo. Mas ele insiste em tentar explicar suas ações: "Repasso o assunto não só publicamente, mas também em minha mente, o tempo todo, e reencontro o fato de que era preciso tomar uma decisão. Eu poderia ter recuado, mas isso também teria suas conseqüências. Se eu tivesse tomado a decisão oposta, não seria sem conseqüências."

Quanto a um eventual acordo com Brown, ele vai além da fórmula familiar sobre o ministro brilhante. Anuncia, como se fosse natural: "Gordon daria um excelente primeiro-ministro." Isto significa que, quando chegar a hora, ele votará pessoalmente em Brown? Blair responde evitando falar em prazos: "Eu disse o que disse, e considero o que estou dizendo bastante óbvio." É o endosso mais claro que poderíamos obter a essa altura.

Se alguém tem dúvidas sobre a durabilidade da parceria Brown-Blair depois do dia da eleição, Blair apressa-se em demonstrar que não trabalha apenas numa parceria, e sim num esforço de equipe. Em vez do estilo presidencial a que estamos acostumados, ele observa que é a equipe trabalhista inteira que se apresenta para a reeleição, reconhecendo que seu governo foi, no início, conduzido por um pequeno círculo.

"Houve no último par de anos e certamente haverá no futuro uma sensação mais concreta de que existe uma equipe. Quando estávamos na oposição, ela necessariamente girava em torno de algumas poucas pessoas mais importantes."

Esse estilo, Blair admite, o acompanhou na chegada ao governo, mas agora isso está mudando: "É absolutamente essencial construir uma equipe forte para o futuro e apresentar uma equipe forte agora. É por isso que Gordon Brown e eu estamos passando muito tempo juntos, e amanhã estarei com (o ministro da Saúde) John Reid e (a ministra da Educação) Ruth Kelly - para que fique bem claro que existe uma equipe."

Isto soa encorajador, mas e quanto às notícias de que o lorde (John) Birt será convocado depois da eleição para chefiar uma unidade especial de desempenho do primeiro-ministro, aplicando mudanças radicais? Lorde Birt já foi descrito como "John Sanguinário Birt" pelo vice-primeiro-ministro John Prescott, e Blair não é muito efusivo quanto a seu futuro. "John sempre esteve presente como um conselheiro e faz seu trabalho extremamente bem, ele lhe oferece uma perspectiva diferente das coisas, mas, como sempre nessas situações, as pessoas tiram completamente do contexto o grau de influência ou poder que alguém possui."

Ele se mostra mais entusiasmado com o ex-ministro do Interior David Blunkett, que deixou claro seu desejo de voltar ao gabinete depois da eleição. "Sim, eu gostaria de tê-lo de volta, sim. ... É preciso analisar tudo quando chegar a hora e quais as reivindicações concorrentes das pessoas, e não estou presumindo nada, mas não tenho dúvida de que ele tem algo a oferecer. Acho que os tories (como são conhecidos os conservadores) teriam conseguido muito mais com a questão do asilo, não fosse pelas mudanças que ele promoveu."

Nessa questão, diz ele, os conservadores têm feito "uma campanha bastante inescrupulosa", mas esse não é o tema que define a eleição. Blair encontrou uma questão mais complexa na mente do eleitorado - revelada quando pergunto o que ele achou mais interessante nas últimas semanas.

"Há uma sensação real de que, seja em relação à disciplina nas escolas ou ao vandalismo nas noites de sexta-feira e sábado diante dos pubs, as pessoas desejam verdadeiramente uma sociedade de respeito e regras, mas sem preconceito." Blair admite que alguns problemas estão "profundamente enraizados" mas promete um verdadeiro debate sobre eles.

Em uma questão, no entanto, ele é claro: "Chega um ponto em que você tem de dizer que esta é uma responsabilidade do governo, mas também é algo que nós, enquanto governo, não podemos fazer sozinhos. Deve-se ver o governo moderno como uma parceria com o povo. Você pode fazer leis, mas não pode alterar diretamente o comportamento se não receber compreensão e apoio das comunidades locais e nos níveis da rua, do bairro, da cidade para as coisas que está tentando fazer."

Mais governo de gabinete, mais compartilhamento de poder com as comunidades locais: tudo soa muito bem, mas por que as pessoas deveriam acreditar nisso? Blair não admite que houve uma enorme decepção depois de todas aquelas promessas de "um novo alvorecer" quando ele foi eleito pela primeira vez?

Blair não se desculpa por isso, lembrando que Bill Clinton dizia que as pessoas com agendas progressistas sempre se decepcionam.