Título: Nilmário suspende publicação e pede análise sobre conteúdo
Autor: Carlos Marchi
Fonte: O Estado de São Paulo, 05/05/2005, Nacional, p. A8
A COISA FICOU PRETA: forte conotação racista contra os negros, pois associa o preto a uma situação ruim. AIDÉTICO: discriminador, o correto é HIV positivo ou soropositivo, para quem não apresenta os sintomas, e pessoa com aids ou doente de aids para quem apresenta. BAIANADA: atribui aos baianos inabilidade no trânsito. É um preconceito de caráter regional e racial, como os que imputam malandragem aos cariocas, esperteza aos mineiros, falta de inteligência aos goianos e orientação homossexual aos gaúchos. BAITOLA: utilizada para depreciar os homossexuais, assim como bicha e boiola. Sugeridos como corretos: gay e entendido (a). BARBEIRO: xingamento para motorista inábil. Ofensiva ao profissional especializado em cortar cabelo e aparar a barba. CABEÇA-CHATA: termo insultuoso e racista dirigido aos nordestinos, cearenses em especial. COMUNISTA: contra eles foram inventadas calúnias e insultos, para justificar campanhas de perseguição que resultaram em assassinatos em massa, como durante o regime nazista na Alemanha. PALHAÇO: o profissional que vive de fazer as pessoas rirem pode se ofender quando alguém chama de palhaço uma pessoa a quem se atribui pouca seriedade. GILETE: o termo adequado é bissexual. LADRÃO: termo aplicado a indivíduos pobres. Os ricos são preferencialmente chamados de corruptos, o que demonstra que até xingamentos tem viés classista. PRETO DE ALMA BRANCA: um dos slogans mais terríveis da ideologia do branqueamento no País, que atribui valor máximo à raça branca e mínimo aos negros. SAPATÃO: usada para discriminar lésbicas, mulheres homossexuais. Entendidas e lésbicas são termos mais adequados. XIITA: um dos ramos do Islamismo se tornou no Brasil termo pejorativo que caracteriza militantes políticos radicais e inflexíveis. Carlos Marchi A Secretaria Nacional de Direitos Humanos suspendeu desde ontem a distribuição da cartilha Politicamente Correto & Direitos Humanos, editada no ano passado. Hoje e amanhã o Comitê Nacional de Educação em Direitos Humanos, que aprovou a cartilha em 2004, vai analisar o seu conteúdo e dar novo parecer, a pedido do ministro Nilmário Miranda. A cartilha foi editada mediante convênio da Secretaria Nacional de Direitos Humanos com a Fundação Universitária de Brasília (Fubra), ligada à Universidade de Brasília, que pagou a conta da edição dos 5 mil exemplares impressos, cerca de R$ 30 mil. Ontem o Estado passou a tarde tentando falar por telefone com o presidente da Fubra, Edejavar Rodrigues Lira, sem êxito. Nas quatro primeiras ligações a secretária disse que Edejavar estava noutra ligação; na quinta, disse que ele já tinha ido embora.
A idéia de editar a cartilha foi do subsecretário de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos, Perly Cipriano. Ele se inspirou em demandas trazidas por muitos movimentos sociais que se relacionam com a secretaria - grupos de negros, homossexuais, mulheres, idosos, judeus. Quando a idéia começou a ganhar corpo, ele procurou o Conselho de Combate à Discriminação, seu vizinho na secretaria, e recolheu novas sugestões para o trabalho.
"As lésbicas, por exemplo, querem ser chamadas de lésbicas, e não de sapatão. O servidor público quer ser chamado de servidor público, e não de funcionário público", insiste ele. Cipriano lembra que um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), certa vez, chamou os idosos de "matusaléns", o que fez desabar protestos na secretaria. "Foi então que eu me convenci de que, se fizéssemos alguma coisa, levaríamos as pessoas a refletir a respeito do preconceito", explica.
Ele confirma que Nilmário mandou recolher a distribuição da cartilha até a nova deliberação do Comitê Nacional de Educação e Direitos Humanos. Mas continua achando que a cartilha foi uma boa idéia: "Quem tem militância em direitos humanos precisa descobrir todos os dias que tem preconceito. E precisa se livrar dele a cada dia", observa. Perly Cipriano foi militante da Aliança Libertadora Nacional (ALN) e cumpriu pena de dez anos como preso político. Diz que, da cadeia, ajudou na fundação do PT, em 1979.
CRÍTICAS
A cartilha Politicamente Correto & Direitos Humanos foi editada em 2004 e distribuída pela primeira vez na Conferência Nacional de Direitos Humanos, realizada na Câmara dos Deputados em junho e julho de 2004. Na época, não fez nenhum sucesso. Agora, foi novamente distribuída num seminário de direitos humanos e, repentinamente, ganhou as páginas da imprensa, com duras críticas de personalidades e intelectuais.
Anteontem à tarde Nilmário Miranda ligou para o escritor João Ubaldo Ribeiro, que teve a mais dura reação contra a cartilha, e prometeu que ela seria reavaliada pelo Comitê Nacional de Educação em Direitos Humanos. "Não podemos aceitar esse delírio totalitário, autoritário, preconceituoso, (ele, sim) asnático, deletério e potencialmente destrutivo", argumentou o escritor em e-mail distribuído a amigos. "Chega de burrice, chega de abuso, chega de incompetência, chega de merda jogada sobre nossas cabeças."