Título: Sem-terra fazem 11 reféns e detêm 160 crianças
Autor: José Maria Tomazela
Fonte: O Estado de São Paulo, 05/05/2005, Nacional, p. A10
Descontentes com o novo sistema de assentamento que está sendo usado pelo Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) no Mato Grosso do Sul, dois mil sem-terra ligados ao MST invadiram ontem a Fazenda Itamarati II, em Ponta Porã. Os invasores fizeram 11 funcionários do órgão reféns, entraram em 13 residências dos servidores e apreenderam oito veículos oficiais. Também detiveram até o início da tarde 160 crianças do ensino fundamental de uma escola estadual que funciona dentro do imóvel. Elas ficaram sem aula devido à manifestação e só foram liberadas quando os líderes do movimento permitiram. Os manifestantes são parte de um total de 580 famílias do MST, acampadas dentro da fazenda onde aguardam assentamento definitivo. A propriedade rural está destinada ao assentamento de 2.071 famílias de quatro entidades que representam trabalhadores rurais, o MST, Cut-Rural, Fetagri (Federação dos Trabalhadores na Agricultura) e Amffi (Associação dos Moradores e Ex-Funcionários da Fazenda Itamarati). Apenas os acampados do MST discordam da inovação do Incra, denominado Programa Terra Vida.
Trata-se da divisão de cada um dos lotes entregues aos sem-terra, em duas partes. Uma delas estimada em no máximo 40% da área para a produção agropecuária individual e os 60% restantes em uma área societária.
Para o superintendente do Incra no Estado, Luiz Carlos Bonelli, não há a menor possibilidade de atender a reivindicação. "Não podemos negociar sob essa forte tensão. Além disso, o Terra Vida é um programa. O velho sistema está falido", afirmou. Procuradores do Incra foram até o local do conflito tentar libertar os reféns, mas até a noite não conseguiam contornar a situação.