Título: Enquanto marcha, MST invade
Autor: José Maria Tomazela
Fonte: O Estado de São Paulo, 05/05/2005, Nacional, p. A10
O Movimento dos Sem-Terra (MST) deu seqüência ontem à marcha para Brasília fazendo o que mais sabe: invasões. Duas áreas particulares, pertencentes a uma associação agropecuária, foram ocupadas em Anápolis, a 50 quilômetros de Goiânia, para a instalação de um acampamento. Os terrenos ficam no distrito industrial próximo do autódromo municipal onde os organizadores instalaram a cozinha que atende a marcha. A área do autódromo, cedida pela prefeitura, não foi suficiente para acomodar os 11 mil sem-terra, segundo o coordenador nacional Valquimar Reis. Os sem-terra cortaram as cercas de arame farpado para entrar nos terrenos, que estavam sem uso. "Vamos ficar menos de dois dias", justificou. Eles invadiram também, na terça-feira, a Fazenda Taba e um terreno do Posto Cacique, nas margens da BR-060, em Teresópolis de Goiás. As áreas foram usadas para o acampamento, onde os sem-terra ficaram parte da tarde e passaram a noite. A estrutura foi desmontada no reinício da marcha, ontem, ao amanhecer. O dono da fazenda, Índio Tiago do Brasil, ex-prefeito de Goiânia, não sabia que sua propriedade seria usada pelos sem-terra. O caseiro Antonio Alves Pinheiro contou que eles chegaram de surpresa, cortaram a cerca e foram entrando com os caminhões. Chamado pelo caseiro, Brasil foi até o local, mas nada pôde fazer. Ele pediu ajuda aos policiais rodoviários federais que acompanham a marcha e foi aconselhado a não enfrentar os invasores.
Além de aproximadamente 100 metros de cerca destruídos, o caseiro constatou o corte de mais de uma centena de varas de bambu e danos à pastagem. O piquete estava pronto para receber gado. Uma parte dos sem-terra em marcha a Brasília ergueu as barracas no terreno do posto. A gerente do estabelecimento, Lueci Rosa da Costa, disse que tentou conversar com os líderes e não foi ouvida.
"Falei que a área era particular, mas eles disseram que não precisavam de permissão". Ela disse que durante a permanência dos sem-terra o movimento no posto ficou prejudicado. O coordenador nacional do MST disse que a fazenda foi escolhida porque fica próxima de um posto da Polícia Rodoviária Federal (PRF), onde haveria mais segurança. "O dono foi lá e permitimos que ele circulasse pelo acampamento." Segundo ele, as áreas foram ocupadas só para acomodação do pessoal. "Devolvemos do jeito que estavam."
Ontem, um caminhão carregado com bois tombou na BR-060, quando passava ao lado do acampamento. O motorista Lucimar da Conceição Souza disse que perdeu o controle ao desviar de um grupo de sem-terra que atravessava a pista. O motorista se feriu e três bois morreram. Hoje, a marcha segue até a praça da Câmara Municipal, no centro de Anápolis, onde o MST realiza um ato público. O prefeito Pedro Fernando Sahion (PSB), que cedeu o palco e o sistema de som, vai participar do ato. A caminhada será retomada amanhã. A entrada em Brasília está prevista para o dia 17. SP Severino vai cobrar hoje de Lula cargos para aliados Christiane Samarco BRASÍLIA O presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE), toma café esta manhã com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, cobrando cargos para os aliados do governo e um "melhor atendimento" aos deputados. Severino reclamou ontem que Lula não recebe nem conversa com os parlamentares.
"Ou o governo muda ou terá dificuldades seriíssimas na Câmara", advertiu Severino ontem, ao deixar o apartamento do ministro da Coordenação Política, Aldo Rebelo, onde almoçou no início da tarde.
O único ministro que escapou das críticas do presidente da Câmara foi o anfitrião do almoço. Ao contrário, Severino derramou elogios a Rebelo e ainda antecipou a "sugestão" que fará a Lula no café de hoje. "Vou sugerir que o presidente dê a Aldo o que falta ao mais querido no Congresso para que o governo não tenha mais problema: a caneta com tinta".
Foi assim que Severino lamentou o fato de o ministro não ter poder efetivo para atender pedidos de nomeações para cargos do Executivo federal, o que aumentaria sua capacidade efetiva de negociação política.
Estabeleceu-se aí a mais nova parceria política entre o Palácio do Planalto e o Congresso. De um lado, o ministro enfraquecido pela falta poder para assinar nomeações e que ainda enfrenta resistências do núcleo político do governo e do PT, que querem sua cadeira. De outro, um presidente da Câmara que tem dificuldades na interlocução com o Planalto e que já começa a sentir na pele o desgaste diante da opinião pública, por conta da paralisia da Casa e de suas posições polêmicas.