Título: Mineradora acusa CSN de usar informação falsa
Autor: Renata Veríssimo
Fonte: O Estado de São Paulo, 05/05/2005, Economia, p. B9

O presidente das Minerações Brasileiras Reunidas (MBR), empresa controlada pela Vale do Rio Doce, Tito Botelho, acusou ontem as empresas siderúrgicas de divulgarem informações falsas sobre o mercado de mineração para tentar influenciar a decisão que o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) tomará sobre as operações de compra de empresas do setor de minério de ferro feitas pela Vale. A acusação é mais um capítulo da guerra iniciada pelas siderúrgicas para tentar restringir o poder de mercado da Vale, maior fornecedora de matéria prima para as usinas. "Estão usando alegações inverídicas para influenciar pessoas que não conhecem a área", disse Botelho, referindo-se a declarações do presidente da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), Benjamin Steinbruch, que acusou a Vale de ser monopolista. "Desde que houve o descruzamento das participações da Vale e da CSN, todas as ações do Steinbruch em relação à Vale têm cunho emocional", disse Botelho.

O descruzamento das participações que uma empresa tinha no capital da outra foi feito por exigência do governo, para resolver o conflito de interesses e facilitar os investimentos nos dois setores, mineração e siderurgia.

Botelho afirmou, porém, que a CSN está interessada em voltar ao mercado de mineração e esse seria um dos motivos dos ataques de Steinbruch. O presidente da MBR defendeu o direito da Vale de deter 40% de participação na MRS Logística, concessionária responsável pela malha ferroviária Sudeste.

Em abril, a Procuradoria do Cade recomendou que a participação fique limitada a 20% do capital total. Botelho argumentou que a Vale e a MBR são sócios minoritários na ferrovia enquanto que as siderúrgicas CSN, Usiminas e Gerdau controlam mais de 50%. "A Vale e a MBR hoje não controlam a MRS. Isso é uma grande falácia."

Segundo ele, o interesse da MBR é no bom desempenho da ferrovia. "Somos os maiores utilizadores. A MBR é absolutamente dependente da MRS. Tudo o que a gente exporta e vende passa pela ferrovia." Segundo Botelho, mais da metade da carga escoada pela ferrovia é da MBR. Somados os produtos da própria Vale, o grupo responde por 65% do transporte de mercadorias na malha Sudeste.

Botelho também contestou a afirmação de Steinbruch de que a MRS concorre com a ferrovia Vitória-Minas, controlada pela Vale. Ele explicou que as duas ferrovias estão no limite da capacidade de utilização e não podem competir entre si porque os produtos escoados são de regiões diferentes. "Steinbruch está tentando distorcer a realidade", acusou Botelho.

Botelho acredita que qualquer decisão que o Cade venha a tomar sobre as operações de compra de empresas no setor de minério de ferro pela CVRD não deve ser confundida com o serviço prestado pela MRS. Para ele, uma decisão sobre o controle societário da ferrovia deve ser de responsabilidade da Agência Nacional de Transporte Terrestre (ANTT).

O executivo também classifica de falaciosa a declaração de Steinbruch de que não há competição no setor de mineração. "A Vale e a MBR concorrem com o mundo todo. Se você não entrega o produto, perde mercado."

O diretor-executivo de Investimentos e de Relações com Investidores da CSN, Lauro Rezende, rebateu. Segundo ele, o Cade tem corpo técnico qualificado para não ser influenciado por ninguém. "Acreditar nisso é ingenuidade." Já para o diretor de Mineração da CSN, Juarez Saliba, as acusações não passam de uma tentativa de desviar a atenção para a real discussão, que é manter um ambiente de concorrência.