Título: Para Stédile, poder deixou Lula surdo
Autor: José Maria Tomazela
Fonte: O Estado de São Paulo, 06/05/2005, Nacional, p. A13

ANÁPOLIS - O coordenador nacional do Movimento dos Sem-Terra (MST), João Pedro Stédile, disse ontem em Anápolis, a 50 quilômetros de Goiânia, que a política econômica do País precisa ser mudada com ou sem o ministro da Fazenda, Antonio Palocci. Dizendo-se amigo do presidente, Stédile afirmou que participa da marcha dos sem-terra a Brasília para dizer a Lula que é impossível continuar com a atual política que considera neoliberal. "O Palocci é um problema dele (Lula). Nossa obrigação como amigo do presidente é dizer que a política econômica está errada, seja dele (Lula), seja do Palocci, seja do FMI." O líder do MST considerou "burrice" o presidente manter a atual política de juros. Segundo ele, o MST vai a Brasília para dizer isso ao presidente "até estourar os tímpanos". De acordo com Stédile, pouco importa para o movimento se restam apenas um ano e meio de mandato para Lula ou se ele será candidato à reeleição. O líder disse que o calendário do MST não é um calendário de governo. "Nosso calendário é que o povo precisa de um projeto e de uma solução para seus problemas." Segundo ele, o Brasil tem uma grande crise de projeto e por isso não consegue realizar os anseios da sociedade. "Vamos pedir ao Lula que abandone o neoliberalismo e recupere as energias do País e da economia para resolver a falta de trabalho, renda, escola e teto."

Ele reconheceu que o presidente sabe disso, mas disse que provavelmente se esqueceu. "Sempre que as pessoas entram no governo, começam a ficar surdas. A surdez é um problema que ataca todos os governantes, inclusive os da esquerda. O povo tem voz suficiente para romper os tímpanos de quem está no poder." Stédile afirmou que as invasões devem continuar depois da marcha. Segundo ele, esse não é um problema nem do MST, nem do governo. "É algo que acontece num País que tem de um lado grandes áreas improdutivas e de outro grandes contingentes de sem terra."

O líder nacional dos sem-terra também falou a cerca de 8 mil integrantes do movimento que se comprimiam em uma praça no centro de Anápolis. O ato marcou o quarto dia da Marcha do MST a Brasília. O deputado gaúcho Adão Preto (PT), numa referência a uma frase do presidente, que criticou o comodismo da população em ralação aos bancos, disse que os sem-terra já tiraram o traseiro das cadeiras e estão indo a Brasília para cobrar a reforma agrária.

Stédile foi a principal estrela do ato público que mais pareceu um comício. Autoridades locais, entre elas o prefeito Pedro Sayom (PSC), deu as boas-vindas à marcha. Houve um princípio de confusão quando alguns estabelecimentos comerciais, que estavam abertos até aquela hora, fecharam as portas à chegada dos sem-terra. Não foi preciso a intervenção da polícia, pois os líderes do movimento contornaram o problema.