Título: Encontro coincide com mau momento da política externa
Autor: Denise Chrispim Marin
Fonte: O Estado de São Paulo, 08/05/2005, Nacional, p. A4

Simultaneamente à cúpula, Itamaraty terá de administrar o conflito com a Argentina e o fracasso de ambições na OMC

BRASÍLIA - O mais acalentado evento da diplomacia do presidente Lula se dará nesta semana justamente no momento em que a política externa converteu-se em passivo para o governo. Em paralelo à cúpula América do Sul e Países Árabes, o Itamaraty administrará o naufrágio da liderança do Brasil na vizinhança, que se tornou evidente no atual conflito com a Argentina de Néstor Kirchner e no fracasso na disputa pelo posto máximo da Organização Mundial do Comércio (OMC), e fará de conta que o Mercosul está a pleno vapor. O gerenciamento dessa situação, enquanto líderes árabes e sul-americanos circulam por Brasília, exigirá mais que diplomacia e bom senso. Haverá necessidade de boa dose de humildade, avaliam analistas da área internacional. Lula deve receber Kirchner quando ainda ressoam as declarações pouco amistosas de seus principais colaboradores ao Brasil e pairam as ameaças de novas barreiras aos produtos brasileiros. O presidente argentino, em princípio, virá. Mas é certo que Lula receberá seu colega Tabaré Vázquez, do Uruguai, depois de o governo ter engolido a aversão ao candidato uruguaio à OMC, Carlos Pérez del Castillo, e anunciado o seu apoio.

Os eventos da semana deslocaram o foco para o Mercosul, o principal pilar da política externa, e o mostraram em frangalhos. Questionado na sexta-feira se havia se distanciado do Mercosul, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, afirmou que não se afastara "de ninguém".

Em sintonia com a orientação do governo, o embaixador José Clemente Baena Soares, que alcançou o topo da carreira diplomática no Brasil e foi também secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), assegurou que o Mercosul é uma construção que vai muito além do comércio e, portanto, levará algum tempo para se consolidar. Em sua opinião, "finalmente o Brasil olha seus vizinhos".

"MOTIVAÇÃO INTERNA"

O ex-chanceler Celso Lafer, considerado um arquiinimigo da atual cúpula do Itamaraty, avalia que a "motivação interna" conduziu a política externa do presidente Lula a equívocos, como a falta de cuidado permanente com a relação com Buenos Aires. O professor Marcelo de Paiva Abreu, da PUC do Rio de Janeiro, também concorda que o Brasil descuidou, de forma geral, da retaguarda da sua política externa.

Marcos Jank, presidente do Instituto de Estudos do Comércio e das Negociações Internacionais (Icone), arrematou que o Mercosul precisa tornar-se prioritário, de fato, sob o risco de recair na "irrelevância" e de arrastar consigo a recém-criada Comunidade Sul-Americana de Nações (Casa, como foi batizada pelo Itamaraty).

Faltaram foco e coordenação na área das negociações comerciais, advertiu Jank. Para ele, o Brasil perdeu a oportunidade de aumentar acesso a seus produtos nos seus principais mercados, os Estados Unidos e a Europa, e se concentrou na tarefa de celebrar "acordos pífios" com parceiros em desenvolvimento.