Título: UFRJ tem receita para País economizar com hemoderivados
Autor: Alexandre Rodrigues
Fonte: O Estado de São Paulo, 10/05/2005, Vida&, p. A15
A conta de aproximadamente US$ 100 milhões paga pelo Brasil todo ano com a importação de hemoderivados, como os fatores de coagulação 8 e 9, proteínas usadas respectivamente no tratamento das hemofilias A e B, pode ser reduzida se o País investir na engenharia genética para produzi-los. Um estudo de pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) mostra que com pouco mais de 20% dos US$ 60 milhões gastos todo ano para importar só o fator 8 é possível erguer uma fábrica de proteína recombinante, um produto mais moderno e seguro, capaz de dar a auto-suficiência ao País. Embora muitos países já privilegiem o uso dos fatores recombinantes, obtidos por meio de células geneticamente manipuladas para produzir a proteína, o governo criou no fim de março a Hemobrás, que vai fabricar apenas parte das unidades consumidas no Brasil a partir do sangue de doadores brasileiros na tentativa de reduzir os custos e a dependência externa.
O País importa 90% dos hemoderivados que consome. Entre eles, todas as unidades de fatores de coagulação distribuídas pelos hemocentros. Nas compras, o Brasil também prefere o produto derivado do plasma, que é mais barato. Cada unidade custa US$ 0,40, enquanto os recombinantes são comercializados por US$ 1,06 no mercado internacional.
Ao decidir pela instalação da Hemobrás em Pernambuco, que vai consumir R$ 65 milhões, o Ministério da Saúde quer baixar o custo da unidade de fator 8 obtido com o fracionamento de plasma para US$ 0,10. A nova estatal só conseguirá, porém, atender a 45% da demanda nacional de fator 8, dada a limitação da oferta na ordem de 500 mil litros anuais de excedente de plasma no País.
Diante desse quadro, os pesquisadores da UFRJ Leda Castilho, da Coordenação de Programas de Pós-Graduação em Engenharia (Coppe), e Ricardo Medronho, da Escola de Química, apresentaram a três formandas em Engenharia Química o desafio de comprovar a viabilidade de uma fábrica de fator 8 recombinante. Catarina da Silveira, Fernanda Petrocínio e Joana Braga demonstraram que é viável e mais vantajoso investir na biotecnologia nesse caso.
CÉLULA PRODUTORA
O primeiro passo foi um levantamento de mercado que definiu a necessidade, para atender à demanda do País, da produção de 160 milhões de unidades do medicamento por ano. A partir daí, projetaram e estimaram os custos dos equipamentos e propuseram, com base nos processos das três multinacionais que vendem o fator 8 recombinante no mundo, uma linha de produção que poderia ser construída no País com investimento total de US$ 12,7 milhões. Elas definiram uma linha de cultivo das células produtoras da proteína num biorreator operando em perfusão, com a ajuda de hidrociclones, equipamento desenvolvido pelos pesquisadores da UFRJ.
O trabalho foi apresentado como projeto de fim de curso com a orientação dos dois pesquisadores. Leda já tem experiência na área, como coordenadora de um estudo sobre o desenvolvimento em laboratório de uma célula capaz de produzir o fator 9 recombinante com os mesmos objetivos. A diferença é que no caso do fator 8, uma rede de cientistas capitaneada pelo Hemocentro de Ribeirão Preto, com a participação de instituições como a Universidade de Brasília (UnB), já chegou à célula produtora. "Se o governo quiser montar essa planta, só precisa do dinheiro e da célula, que, segundo o site da UnB, já foi obtida. Elaboramos todo o plano, que está à disposição sem custo algum para o País", diz Leda.
O estudo calculou ainda o custo anual de produção desses 160 milhões de unidades e a manutenção da fábrica: US$ 13,5 milhões. Os números surpreenderam os coordenadores, porque mostram que é possível comercializar o fator 8 recombinante por preço bem mais baixo do que o da indústria.
Ainda segundo o estudo, se o governo, único comprador e distribuidor dos fatores de coagulação, resolvesse desembolsar os mesmos US$ 0,40 pagos hoje pelo fator 8 importado por cada unidade recombinante, a receita do primeiro ano da fábrica seria de US$ 64 milhões, recuperando o investimento inicial em apenas cinco meses.
HEMOBRÁS
O coordenador da política de sangue e hemoderivados do Ministério da Saúde, João Paulo Baccara, reconhece que o governo não tem estudos sobre a viabilidade de produção de fatores recombinantes, mas garantiu que essa será uma das prioridades da Hemobrás.
De acordo com Baccara, com a assinatura do estatuto da Hemobrás em março, as obras devem começar no segundo semestre. A previsão é de que a produção seja validada em três anos e meio. Ele ressaltou que a Hemobrás é necessária para aproveitar o plasma excedente dos doadores de sangue brasileiros e também para a produção de outros produtos, como a imunoglobulina e a albumina.
Os pesquisadores da UFRJ sabem disso e concordam com a necessidade de levar adiante a Hemobrás. "Achamos que seria muito interessante para o País manter os planos e, além disso, construir uma fábrica de fator 8 recombinante. Ela complementaria a Hemobrás", afirma Medronho. Ele e Leda já atenderam a pedidos para enviar o estudo para a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e empresas privadas interessadas.
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