Título: Continua a agonia do Mercosul
Autor: CELSO MING
Fonte: O Estado de São Paulo, 11/05/2005, Economia, p. B2

Enquanto o presidente venezuelano Hugo Chávez desancava seus desafetos no palanque armado na cúpula América do Sul-Mundo Árabe, os empresários argentinos reclamavam "prioridade do Brasil para o Mercosul" e pediam uma escolha: ou o Brasil avança na integração ou deixa os sócios livres para decidir suas próprias vidas.

O governo Kirchner reivindica a mesma coisa de maneira diferente: quer que o Brasil se engaje na institucionalização do Mercosul por meio de harmonização das políticas macroeconômicas e da eliminação das assimetrias. Mas só vê assimetrias entre Argentina e Brasil. Para ele, não há assimetria a corrigir entre as situações de Paraguai e Uruguai e a dos outros dois sócios. A maneira como antecipou a volta e esvaziou a reunião de cúpula sugere que Kirchner teme que o Brasil espraie sua liderança para toda a América do Sul e para o grupo que eventualmente se aproximar desse núcleo.

Como o governo Bush está de costas para seu quintal latino-americano, os países da área sentem o desamparo e agora não sabem se aceitam a oferta de liderança do Brasil, que vem sem dinheiro, ou se insistem em chamar a atenção dos Estados Unidos para suas mazelas, com risco de continuar de mãos vazias.

A proposta de aprofundar a coordenação das políticas macroeconômicas está em todos os discursos de líderes do Mercosul. Mas esbarra em um problema de fundo. Não dá para coordenar políticas enquanto a Argentina não normalizar suas relações com o resto do mundo. A ferida do calote da dívida não cicatrizou e a troca de títulos aprovada em janeiro não conseguiu ainda passar por um tribunal de Nova York, que está retendo os títulos argentinos.

O presidente Kirchner se queixa de que só recebeu indiferença e pouco-caso do governo brasileiro em todo o processo de renegociação da dívida. Quer que o presidente Lula use seu prestígio e a densidade política do Brasil para amolecer o Fundo Monetário Internacional no processo de renegociação do acordo com a Argentina.

Mas, depois de tanto empenho em produzir um choque de confiança e de comprometer-se a cada momento a respeitar contratos, o governo Lula não poderia passar a impressão de que está apoiando o calote. Ficaria difícil argumentar, por exemplo, que o apoio ao calote valeria apenas para a Argentina e que, em nenhuma hipótese, o governo Lula estaria sugerindo que pudesse dar "tratamento argentino" para a dívida brasileira.

Não parece provável que o empresariado argentino esteja de fato interessado, como vem afirmando, no rebaixamento do Mercosul, situação que deixaria seus quatro sócios livres para negociar acordos comerciais em separado com quem bem entendessem. Sozinha, o poder de barganha da Argentina ficaria reduzido a uma fração do que é hoje.

O governo brasileiro não pode aceitar a instituição de mecanismos de salvaguarda que se encarregariam de impor bloqueios automáticos cada vez que aumentasse o fluxo de mercadorias em direção a um lado da fronteira. Essas travas são inconcebíveis numa área de livre comércio. A outra proposta argentina de adotar "código de conduta" que exigisse investimentos industriais simétricos dentro do Mercosul também não faz sentido, na medida em que a imposição de condicionantes acabaria empurrando investimentos destinados ao Brasil para outros países (como China, Coréia, Tailândia ou México) onde o capital de risco é recebido de braços abertos, sem exigências desse tipo.

Nos próximos quatro meses, o governo Kirchner vai aproveitar cada oportunidade para simular que está peitando o vizinho do Norte, o que lhe valerá votos preciosos nas próximas eleições de outubro. Enquanto isso, o governo Lula seguirá tentando ganhar tempo e procurará acalmar o presidente Kirchner. Enfim, a intensa troca de farpas não serviu grande coisa. Continua a agonia do Mercosul.