Título: Revista admite erro em notícia sobre Alcorão
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Fonte: O Estado de São Paulo, 16/05/2005, Internacional, p. A10

'Newsweek' diz que fonte já não confirma versão de profanação que revoltou muçulmanos

WASHINGTON A revista americana Newsweek, cuja reportagem sobre suposta profanação do Alcorão provocou protestos com vários mortos em países islâmicos, admitiu ontem que a informação que originou à publicação pode estar errada. A revista informou que o Departamento da Defesa protestou com veemência, assegurando que a história era um erro. O editor de Newsweek, Mark Whitaker, redigiu editorial reconhecendo o equívoco: "Lamentamos que parte de nossa história tenha sido um equívoco e queremos expressar nossa solidariedade às vítimas da violência, bem como aos soldados americanos que sofreram com isso."

No dia 9, a revista escreveu que militares americanos descobriram durante uma investigação que, no campo de prisioneiros da base naval americana de Guantánamo, em Cuba, um exemplar do Alcorão havia sido lançado numa privada durante um interrogatório de presos muçulmanos acusados de atividades terroristas.

Manifestações de protesto ocorridas durante a semana passada no Afeganistão deixaram pelo menos 14 mortos e 120 feridos.

Newsweek destacou que, ao checar as informações com um alto oficial do Exército americano que havia revelado detalhes do incidente, este já não estava tão seguro de sua versão.

No pior momento das manifestações, vários países islâmicos expressaram profunda preocupação e pediram ampla e completa investigação à Casa Branca. Altos funcionários do Pentágono disseram, então, não ter encontrado nenhuma prova.

Ontem, um grupo de clérigos muçulmanos voltou a exigir um esclarecimento convincente das autoridades americanas para o episódio.

A maioria dos 520 prisioneiros confinados em Guantánamo é constituída de islâmicos, capturados sob suspeita de terrorismo durante a campanha de ocupação do Afeganistão para destituição do regime do Taleban, acusado de dar abrigo à rede terrorista Al-Qaeda, do saudita Osama bin Laden, responsabilizada pelos atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos.

Tanto no Afeganistão quanto no Paquistão, os insultos ao Alcorão e ao Profeta Maomé são considerados blasfêmia e castigados com pena de morte.

"Os soldados dos Estados Unidos são reconhecidos por sua absoluta falta de respeito para com outras religiões", disse ontem Qazi Hussein Ahmed, diretor de uma filial paquistanesa de uma coalizão de grupos radicais islâmicos. O comentário dele ocorreu um dia depois de o presidente paquistanês, general Pervez Musharraf, ter exigido detenção e punição exemplar para o responsável pela profanação.