Título: O vale-tudo chinês
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Fonte: O Estado de São Paulo, 15/05/2005, Notas & informações, p. A3
Não se pode dizer que toda indústria chinesa pague mal. Algumas empresas nem pagam com regularidade e trabalhador que protesta pode acabar na cadeia, como ocorreu em outubro com cinco empregados de uma fábrica de sapatos de Dongguang, província de Guangdong. Cerca de mil trabalhadores participaram do protesto, segundo a agência France Presse. Os condenados, com idades entre 16 e 21 anos, receberam penas de até três anos e meio de prisão. Notícias desse tipo têm aparecido com freqüência na imprensa internacional, mas, apesar disso, o ex-dirigente sindical que preside o Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, concordou no ano passado em conceder à China o status de economia de mercado, antecipando-se a dezenas de outros membros da OMC.
Chegou a hora de disparar o alarme contra as importações chinesas, disse na terça-feira, num fórum econômico no Rio de Janeiro, o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf. "O mundo inteiro está preocupado com a China e procurando se defender", afirmou. "A Argentina", lembrou Skaf, "regulamentou as salvaguardas específicas (contra a concorrência chinesa) há muito tempo."
Não só os industriais chamam a atenção para as condições em que se produz na China. Os trabalhadores da indústria de bens de consumo trabalham 14 horas por dia, 7 dias por semana, praticamente sem nenhuma proteção, disse ao Estado o economista Dong Tao, que nasceu em Xangai e trabalha em Hong Kong para o banco Crédit Suisse First Boston como analista de países da Ásia.
Com 480 milhões de trabalhadores rurais chineses querendo trabalhar na indústria, as condições de trabalho deverão manter-se por muitos anos, segundo o economista. Essas condições, comentou, "são tristes do ponto de vista dos direitos dos trabalhadores e dos direitos humanos, mas são absolutamente positivas do ponto de vista do capitalismo". Segundo Dong Tao, o salário médio mensal na indústria é de US$ 100, com um mínimo de US$ 70. É o que explica o volume maciço de investimentos estrangeiros na China.
A lei chinesa estabelece uma semana de trabalho de 40 horas, em 5 dias, e uma série de benefícios trabalhistas e sociais, que incluem contribuições para a aposentadoria. Mas há pouco respeito às normas e quase nenhuma liberdade de organização e de manifestação.
Na província de Guangdong, trabalhadores migrantes têm recebido em média o equivalente a US$ 190 por mês. A média salarial dos migrantes tem ficado abaixo de US$ 120. Esse dinheiro é ganho em condições muito ruins. Muitas fábricas funcionam como "sweatshops", isto é, como centros de superexploração, com 15 horas de trabalho por dia, 7 dias por semana. Isso inclui horas extras obrigatórias e regulamentos freqüentemente coercitivos, segundo o jornal Taipei Times, de Taiwan, uma das principais fontes de investimento na China.
Também a oferta de capital na China, como a de trabalho, é quase ilimitada, explica Dong. Os bancos estatais falidos emprestam para as empresas investirem sem nenhuma preocupação de receber o dinheiro de volta. Um dia haverá a explosão do sistema financeiro, mas isso vai demorar. Só de recursos internacionais, a China tem US$ 660 bilhões e os empréstimos ruins dos bancos montam a US$ 800 bilhões. "Com oferta de trabalho ilimitada e capital em excesso", prevê Dong, "a China vai dominar indústrias, uma atrás da outra."
Descrições detalhadas de como funcionam indústrias chinesas podem ser encontradas no site da organização não-governamental China Labour Watch, fundada nos Estados Unidos por um ex-trabalhador industrial, Li Qiang, hoje vinculado à Universidade de Colúmbia. Um exemplo do trabalho dessa organização é o extenso relatório, divulgado em dezembro de 2004, sobre o funcionamento de uma indústria que produz calçados para uma empresa americana.
Seus empregados têm de aceitar, entre outras exigências, o pagamento de um depósito pelos instrumentos de costura que utilizam. Freqüentemente, segundo informações atribuídas a operários, eles têm de pagar pela reposição de acessórios quebrados.
Trabalho barato, inexistência de direitos trabalhistas, câmbio subvalorizado e financiamentos concedidos em condições excepcionalmente favoráveis tornam insuperáveis as condições de competição de muitas exportadoras chinesas. É, para dizer o mínimo, uma estranha economia de mercado.