Título: Por que atacam os rebeldes
Autor: Hiwa Osman
Fonte: O Estado de São Paulo, 15/05/2005, Internacional, p. A14
O caminhão de 60 rodas estava carregando um gerador de força gigante na estrada de Musayyib, cerca de 50 quilômetros ao sul de Bagdá, na semana retrasada. Guardado por seis carros levando a polícia e a Guarda Nacional Iraquiana, o comboio estava passando ao largo da famosa estrada de Bagdá perto de Lutifiyah, um reduto de atividade rebelde onde muitos seqüestros e ataques contra carros civis acontecem. Uma faixa pendia no gerador, como um amuleto para afastar todo o mal. Em letras grandes, a frase atravessava a faixa: "Para a usina de Musayyib. Deus é grande. Vida longa aos mujahedin."
O cartaz era um apelo aos insurgentes do Iraque para que não atacassem o comboio e não privassem o povo de Musayyib de eletricidade. Se foi por causa da faixa, da sorte ou da ausência de rebeldes na estrada aquele dia, não se sabe, mas o fato é que o gerador e os 28 seguranças conseguiram chegar a seu destino.
Como o pessoal desse comboio, os iraquianos estão imaginando por que as diversas pessoas conhecidas pelo curto nome de "rebeldes" continuam a atacar e o que elas esperam conseguir.
Desde a semana em que o novo gabinete foi formado, centenas de iraquianos foram massacrados em ataques com carros-bomba e outros atentados sangrentos, num ritmo tão incansável e inclemente como nunca desde a queda de Saddam Hussein, mais de dois anos atrás. Embora os ataques pareçam indiscriminados, há uma estratégia por trás deles.
Na verdade, há mais de uma. Isso porque os insurgentes são, na verdade, vários grupos de pessoas que podem compartilhar táticas, mas têm diferentes motivações e objetivos de longo prazo. Portanto, o apelo na faixa pendurada no gerador em trânsito pode ter tido um efeito com um grupo de insurgência: aqueles que foram demitidos do Exército e de outras instituições do governo por serem membros do Partido Baath, mas não acreditam de verdade na velha fórmula de socialismo árabe de Saddam Hussein. Mas duas outras importantes facções da insurgência - os baathistas duros na queda e os militantes islâmicos ligados à Al-Qaeda - não hesitariam em atacar o que eles veriam como um alvo perfeito: um gerador gigante, 12 policiais e 16 guardas nacionais iraquianos. Promover instabilidade desarticulando serviços básicos e sabotando o aparato público do novo Iraque está no centro de sua estratégia.
Entender as diferentes variedades da insurgência é essencial para combatê-la. Dois anos depois da guerra e três meses depois de eleições nacionais que pareciam ser um referendo em favor de uma política pacífica, os violentos rebeldes continuam sendo um obstáculo difícil de superar no caminho para um novo Iraque. O país jamais vai poder evoluir até que essa revolta seja tratada com decisão.
A espinha dorsal da insurgência parece ser uma aliança entre os baathistas ferrenhos e a rede de tenoristas sob o comando de Abu Musab al-Zarqawi. É uma parceria de conveniência; ambos os grupos estão lutando a mesma batalha, mas por diferentes razões e com objetivos diferentes.
Os soldados de infantaria que formam a porção baathista da aliança têm conhecimento militar. Eles são ex-membros do Exército de Saddam, onde serviram como soldados rasos, ou na segurança e nas áreas de inteligência. Eles perderam seus empregos logo depois da guerra, quando as forças da coalizão dissolveram o Exército e os aparatos de segurança e inteligência. Eles também sofreram uma lavagem cerebral com idéias de nacionalismo árabe e antiamericanismo durante o período de Saddam. Terem sido demitidos de seus trabalhos só reforçou as teorias conspiratórias em que foram levados a acreditar e isso reforçou seu antiamericanismo.
Esses soldados de baixíssimo nível são dirigidos por funcionários dos antigos altos escalões do Exército, segurança e inteligência do regime baathista, que perderam todos os privilégios e o poder de que gozavam sob Saddam. Eles conseguiram reunir algumas de suas velhas redes de espionagem, recrutando ex-funcionários para coletar informações e pagar a quem estiver disposto a cometer assassinatos e ataques contra alvos civis e militares.
Sua habilidade em propagar o medo é evidente. Um residente de Bagdá que visitou o então presidente interino Ghazi al-Yawer na Zona Verde contou que, quando os guarda-costas de Al-Yawer o receberam, disseram-lhe para baixar a cabeça enquanto entravam no complexo de governo. "Eles disseram que era melhor eu não ser notado pelos terroristas", lembrou. Os guarda-costas disseram que os insurgentes "me matariam na saída se me reconhecessem".
Os baathistas também se infiltraram em instituições do governo, facilitando tentativas de assassinato em Bagdá e outras cidades do triângulo sunita. Muitos ministros do governo e funcionários públicos ficaram presos em suas casas durante semanas, até meses. Alguns nem ao menos visitaram seus ministérios.
O objetivo dessa porção da aliança é simples: o retorno do domínio baathista por meio de um golpe militar. Num e-mail enviado de seu esconderijo no mês passado, um ex-alto oficial do Exército colocou isso de forma simples: "A partir do momento em que expulsarmos os ocupantes, vamos ter poder suficiente e uma vontade forte para retomar a liderança do Iraque." Ele acrescentou: "Conseguimos fazer isso em 1963 e em 1968. Podemos fazer isso novamente" - uam referência às datas das duas tomadas de poder pelo partido.
Para fazer isso, eles estão dispostos a se associar a pessoas com quem não compartilham sua visão secular. Questionado sobre como os baathistas vêem os militantes islâmicos da Al-Qaeda, o veterano funcionário do Partido Baath Salah al-Mukhtar disse a um jornal iraquiano no começo deste ano que os baathistas "vão apoiar qualquer um que pegue em armas contra os americanos".
Os militantes islâmicos têm seus próprios soldados nesta aliança pagã: partidários que vieram de países vizinhos atravessando fronteiras quase totalmente abertas. Acredito que estas pessoas é que são particularmente úteis para os baathistas, porque fornecem uma carga de homens-bomba dispostos a tudo.
Ataques suicidas não são necessariamente operações iraquianas. "Trinta e cinco anos de repressão brutal de Saddam Hussein não produziram um único homem-bomba", diz um ex-oficial militar que hoje está trabalhando como motorista.
A Síria tem sido uma base importante e ponto de permanência para esses combatentes estrangeiros. Entrevistas com jihadistas presos e transcrições de interrogatórios obtidos das forças de segurança e inteligência iraquianas mostram que uma típica jornada de um jihadista de sua cidade na Síria, Jordânia, Sudão, Iêmen ou qualquer outro país árabe até o momento em que ele se explode acontece mais ou menos assim: depois de decidir que quer combater os americanos no Iraque, ele entra em contato com as mesquitas em Damasco conhecidas por recrutar mujahedin para a guerra santa no Iraque. Normalmente, essas campanhas de recrutamento são abertas por altos funcionários sírios.
Depois de decidir que uma pessoa está apta a conduzir uma "operação de martírio", a inteligência síria a treina para disfarçar sua identidade e manipular explosivos e munições. Mulás radicais suplementam isso com altas doses de duro ensinamento religioso. O voluntário é, então, levado pelo deserto no leste da Síria até as fronteiras porosas, para atingir o triângulo sunita no Iraque - onde ele é recebido e abrigado por membros da rede baathista de inteligência e segurança.
A segunda parte da jornada é para um esconderijo em Bagdá, onde ele recebe um alvo para explodir ou é enviado para determinadas áreas para combater os americanos ou o novo Exército e as forças policiais do Iraque.
O Irã também está abrigando e treinando membros de outros grupos militantes. O Institute for War & Peace Reporting revelou alguns meses atrás que o Irã está dando assistência ao grupo islâmico radical Ansar al-Islam, um grande grupo majoritariamente curdo associado à Al-Qaeda, e ao Ansar al-Suna, que assumiu a responsabilidade pelo ataque suicida que matou mais de 50 pessoas e feriu 70 recrutas policiais no início do mês.
Embora os distintos aliados insurgentes estejam travando guerras diferentes por razões diferentes, por enquanto eles estão combatendo a mesma batalha - destruindo o atual governo iraquiano e tentando expulsar os americanos. Um quer a volta ao poder de Saddam ou de qualquer outro baathista; o outro quer um Iraque ao estilo Taleban. Mas todos estão esperando os Estados Unidos saírem.
A guerra contra essa insurgência pode ser indigesta, mas é do tipo que não pode ser evitada. E seu primeiro objetivo deve ser quebrar a aliança entre a Al-Qaeda e os baathistas.
Para fazer isso, a guerra deve ser combatida em duas frentes. A comunidade internacional deve lançar um ultimato à Síria e ao Irã para que cortem as linhas de suprimento dos insurgentes. Embora o Iraque tenha um governo e presidente eleitos, o país ainda está de joelhos.
A relutante retirada das forças sírias do Líbano dá uma idéia de como os Estados Unidos e a comunidade internacional podem exercer sua influência sobre Damasco. Os iraquianos estão esperando uma exibição de força semelhante em seu benefício.
No Iraque, a guerra pode ser combatida quando se reconhecer que o país é composto de três zonas concorrentes. Em última instância, o povo do triângulo sunita vai se levantar contra a insurgência para que possa alcançar as regiões norte e sul do Iraque, que são mais seguras do que o centro. Enquanto isso, no entanto, não há alternativa para a política da "castigo e incentivo" que tem como objetivo capturar ou matar os mais recalcitrantes baathistas e oferecer trabalho a membros não criminosos do baixo escalão do Partido Baath e integrá-los ao processo político.
Só então os iraquianos conseguirão deixar de lado suas faixas submissas e entrar no complexo do governo sentando erguidos, em vez de se esconder no assento traseiro de um carro fortemente guardado.