Título: Pra que dinheiro?
Autor: Eliana Cardoso
Fonte: O Estado de São Paulo, 18/05/2005, Economia, p. B2

"Um está sempre no escuro, só no último derradeiro é que clareiam a sala", avisa Guimarães Rosa. Mas o leitor quer enxergar o porquê do abandono do conceito de moeda como instrumento no combate à inflação. Conto-lhe o que sei e tento não me esquecer de nada, porque "esquecer é quase igual a perder dinheiro". A relação moeda-inflação sumiu do mapa, como observa o leitor. Desapareceu da mídia e da literatura especializada. Com razão, pois não existe uma relação estável entre expansão monetária e inflação no curto prazo. A figura ao lado, que compara as taxas mensais de expansão monetária e inflação, mostra a ausência dessa relação.

A outra figura compara as médias de três anos das taxas anuais de expansão monetária e inflação. Parece justificar a visão de Milton Friedman de que a inflação é um fenômeno monetário: muito dinheiro correndo atrás de poucos bens. Mas, instrui o tio Paul Samuelson, os bancos centrais já não usam o modelo de Milton Friedman. A relação de longo prazo entre moeda e inflação não revela qual variável determina a outra. Nem permite a conclusão de que há controle eficiente da inflação pela imposição de tetos à expansão monetária. Como dizia Franco Modigliani, "não se freia o carro agarrando-o pela antena".

O foco da política monetária passou a ser a taxa de juros, cujo controle é menos incerto do que o da base, dos meios de pagamento e de outros agregados monetários. A grande vantagem do regime de metas de inflação sobre um regime de metas para agregados monetários é não depender da existência de uma relação estável entre dinheiro e inflação.

Onde está o busílis? O controle da inflação depende da resposta dos gastos privados à taxa de juros real. Mas o Banco Central (BC) controla apenas a taxa de juros nominal básica (a Selic). Entre uma e outra, estão as expectativas dos agentes, a reputação do BC e a desordem introduzida pelo crédito direcionado com tetos para diferentes taxas de juros na economia.

Para completar, "o demônio não precisa de existir para haver - a gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo" e substitui a volatilidade da relação moeda-inflação por outras incertezas. Informação incompleta e entendimento imperfeito permeiam as relações entre juros, gastos e nível de atividade, entre nível de atividade e inflação, entre juros e câmbio e entre câmbio e inflação. Viver, já se sabe, é etc.