Título: Tudo igual. Até a nota do Copom
Autor: Fernando Dantas
Fonte: O Estado de São Paulo, 19/05/2005, Economia, p. B3

Pela nona vez consecutiva, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) elevou a taxa básica de juros (Selic), na reunião iniciada na terça-feira e concluída ontem. A Selic foi elevada de 19,50% para 19,75%, sem viés. A decisão foi tomada por unanimidade pelos nove membros votantes do Copom. No breve comunicado habitual, o BC indicou que está "dando continuidade ao processo de ajuste da taxa básica", que foi iniciado na reunião de setembro de 2004 , quando a Selic estava em 16% ao ano. A nota foi idêntica a das últimas reuniões, e não deu nenhum sinal de que o ciclo de aperto monetário chegou ao fim. A alta da Selic não pegou de surpresa o mercado, no qual havia uma divisão entre os que apostavam na subida de 0,25 ponto porcentual, e aqueles que esperavam que o ciclo de alta fosse interrompido nessa reunião. Alguns analistas, porém, mesmo tendo previsto a nova alta, discordaram da decisão.

Foi o caso, por exemplo, de Alexandre Pavan Póvoa, diretor da Modal Asset Management, que considerou a decisão do BC "coerente" com a ata da reunião de abril, porém equivocada. Para Póvoa, pesou na decisão do BC a preocupação com a contaminação das expectativas de longo prazo pela alta da inflação no curto prazo, o que foi mencionado na última ata. Ele notou que, entre a reunião do Copom de abril e a de ontem, houve até uma piora na inflação de curto prazo no varejo, captada pelo IPCA, que fechou em 0,87% em abril, com núcleos em torno de 0,70.

Póvoa observou que os núcleos de inflação têm vindo altos, e que "não houve um sinal assustador de arrefecimento da atividade econômica". Para o economista, a alta "é uma sinalização importante de que o BC está de olho na inflação e não vai deixar o processo degringolar".

Apesar de entender a decisão, Póvoa discordou dela, já que considerou que o ganho em termos de combate à inflação é menor do que os riscos de uma queda excessiva da atividade econômica. "Esta onda de aumentos (da Selic) ainda vai ter um efeito mais na frente, e temo que seja mais negativo na atividade que positivo na inflação", disse.

Alexandre Ázara, economista-chefe do Banco BBA-Itaú, acha que o aumento de 0,25 ponto porcentual é o último deste ciclo de aperto monetário. "Foi uma decisão conservadora, que eu entendo, mas com a qual não concordo", disse. Ele ressalvou, porém, que não considera a alta de maio muito importante, desde que de fato seja a última, como prevê. Segundo o economista, simulações com modelos que procuram replicar o do Banco Central já indicam - a partir de junho de 2005 - inflação abaixo da trajetória de convergência para a meta de 4,5% em 2006.

Ázara, que prevê inflação abaixo de 6% neste ano, destaca que alguns indicadores de atividade econômica particularmente relevantes já vem indicando uma estabilização em nível até inferior ao do último trimestre de 2004. Ele nota que a ocupação da capacidade instalada recuou para pouco mais de 82%, depois de ter se aproximado de 84%. O índice de confiança do consumidor, por outro lado, já está caindo há dois meses. Para Ázara, isto indica que haverá mais cautela na tomada de crédito.

O economista diz ainda que os preços dos bens comercializáveis no exterior ficaram acima dos níveis internacionais com a forte pressão de demanda no final do ano passado. Agora, com a valorização do real, estes preços, que já estavam deslocados para cima, devem sofrer uma forte pressão baixista.

Do lado dos que defenderam a decisão do Copom, está o economista-chefe do CS First Boston, Nílson Teixeira. "Concordo e previa esta decisão", ele disse, acrescentando que "o principal fator para se continuar o ciclo de aperto é a elevada resistência inflacionária". Ele nota que esta rigidez tem mantido a inflação corrente sistematicamente acima das expectativas sobre a mesma colhidas até um mês antes da divulgação dos índices. "Não combater esta persistência aumenta o risco de se contaminar as expectativas para o segundo semestre de 2005 e para 2006", ele concluiu.

Opinião semelhante à de Beny Parnes, diretor do Banco BBM, e ex-diretor da área internacional do Banco Central: "A decisão veio dentro do esperado, e foi calcada na boas práticas de um banco central - a inflação é alta e mais persistente do que se esperava", ele disse.