Título: Jefferson pressionou por cargos no IRB
Autor: Wilson Tosta
Fonte: O Estado de São Paulo, 21/05/2005, Nacional, p. A5

O ex-presidente da IRB Brasil Resseguros S.A. Lídio Duarte disse ao Estado que durante sua gestão se recusou a fazer contratações de "afilhados" de políticos que recebeu a pedido do presidente nacional do PTB, deputado Roberto Jefferson (RJ). Duarte não atribuiu sua saída às negativas e disse não saber se o petebista fez pressões para que saísse, mas reconheceu que a publicação de notícias dizendo que o trabalhista "pedira sua cabeça" criou no IRB um ambiente "ruim" para sua permanência. Para ele, pessoas da empresa foram a origem das notas hostis. "Deixei o cargo por três motivos: aposentei-me em outubro (de 2004), estava em rota de colisão com o Conselho de Administração e não tinha afinidades com a diretoria (onde a maioria dos cargos é de pessoas indicadas por políticos)", disse ele. Duarte saiu do posto, para o qual fora nomeado em março de 2003, em março de 2005. Jefferson, que trabalhou dentro do governo para derrubá-lo, conseguiu emplacar no cargo Luiz Appolonio Neto, depois de tentar outros nomes. A direção da empresa também tem indicados pelo PMDB, PT e PP, além de um funcionário do Banco Central sem partido.

Segundo o relato de Duarte, Jefferson sempre foi cordial nos contatos que tiveram. Por telefone, o parlamentar pediu ao então presidente do IRB que recebesse os deputados federais petebistas Nelson Marquezelli (SP) e Elaine Costa (RJ), que pediram, de acordo com Duarte, empregos na empresa para algumas pessoas. "Expliquei que isso não era possível, porque no IRB todos os funcionários são de carreira, todos concursados", relatou. Ele contou ter conhecido Jefferson no Ministério da Fazenda, durante audiência com o ministro Antonio Palocci.

Duarte também admitiu que "nunca teve afinidade" com Jefferson, que sucedeu na presidência do PTB o deputado federal José Carlos Martinez (PR), morto num desastre aéreo. Martinez, segundo o próprio ex-presidente do IRB, o indicara para o cargo, embora não se conhecessem antes disso. A indicação foi feita, disse ele, porque seguradores do Paraná, que o conheciam, levaram seu nome ao presidente nacional do PTB.

Para Duarte, os pedidos de contratações de "afilhados" políticos em cargos públicos não são surpresa. "São pressões que as bases dos partidos fazem", avaliou. "Eles sabiam que minha indicação tinha passado pelo Martinez."

O ex-presidente do IRB afirmou não acreditar que o presidente do Sindicato dos Corretores de Seguros do Rio, Henrique Brandão, outro apontado como articulador de sua saída, tenha trabalhado por sua demissão. "O Henrique é uma pessoa que conheço, por ser presidente do sindicato, não tenho nem boa nem má relação com ele", afirmou. "Não acredito (na influência de Brandão na sua saída), não levo em conta isso, não. Considero que saí por vontade própria."

PRESSÕES

Afirmando também não saber de pressões de parlamentares supostamente revoltados com a mudança de normas de escolha de corretores - chegaram a ir à Fazenda, queixar-se que "não era aquilo o combinado"-, Duarte disse nunca ter se sentido pressionado a sair. As mudanças foram implantadas em meados de 2004, por causa de reclamações feitas ao Conselho de Administração. Segundo essas queixas, corretores tradicionais estariam sendo preteridos em negócios, e empresas de menos tradição, favorecidas. Conselheiros exigiram mais impessoalidade nas escolhas, de acordo com fontes ouvidas pelo Estado.

"Desconheço favorecimento a corretores", disse Duarte. "Pressões existem sempre em empresas do Estado." Outra mudança foi a extinção da Diretoria Comercial, que concentrava muito poder para pagar contratos cujo valor individual poderia chegar a R$ 500 mil. Agora, a decisão de pagar é colegiada, de comitês.