Título: 'Antes tarde do que nunca', diz empresário
Autor: Nilson Brandão Junior
Fonte: O Estado de São Paulo, 21/05/2005, Economia, p. B4

Lideranças paulistas consideram a medida positiva, embora critiquem demora na decisão

As lideranças empresariais paulistas consideraram muito positiva a decisão da Câmara de Comércio Exterior (Camex) de regulamentar o mecanismo de salvaguardas para a China. Mas também houve crítica à demora na regulamentação e a Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit) não quis comentar o anúncio do governo. Distribuiu nota afirmando que a entidade somente se pronunciará sobre a adoção da salvaguarda, quando o decreto for publicado no Diário Oficial. O presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, que reivindicava a medida há meses, lembrou que as importações brasileiras de manufaturados chineses crescem de forma rápida.

Em 2003, por exemplo, a balança comercial de manufaturados era superavitária para o Brasil em US$ 160 milhões. Em 2004, o resultado passou para déficit de US$ 1,6 bilhão, e neste ano, a projeção é de um déficit ainda maior, na casa dos US$ 3 bilhões. "Todos os manufaturados foram atingidos pela competição da China. A coisa é séria e muito veloz", disse Skaf. Para ele, a decisão do governo brasileiro mostra a vontade política de Brasília de utilizar mecanismos legítimos de defesa comercial, a exemplo do que fazem Japão, Estados Unidos e União Européia contra a China.

O presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), Claudio Vaz, disse que "as empresas agredidas pela concorrência desleal mantêm, agora, as esperanças vivas." Lembrou que existem importações de lâmpadas chinesas "a preços figurativos de um centavo de dólar e de máquinas injetoras a menos de um terço do preço de mercado."

O diretor do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Fiesp, Carlos Cavalcanti, disse que a regulamentação demorou.Os EUA, lembrou, já têm oito salvaguardas aplicadas na área têxtil. " O governo foi lento para regulamentar o que já estava previsto no acordo de ingresso da China na OMC. Mas antes tarde do que nunca. Vamos cobrar a aplicação destas salvaguardas."

O presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), Elcio Jacometti, considerou a decisão um instrumento eficaz para evitar distorções no setor. Segundo ele, apenas no primeiro quadrimestre de 2005, as importações de calçados chineses para o Brasil superaram entre 160% e 180% as realizadas no mesmo período de 2004.

O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Armando Monteiro Neto, disse que o Brasil não podia ficar passivo diante da penetração dos produtos chineses. Para Monteiro Neto, o setor têxtil é um dos mais prejudicados. Ele espera que, com a regulamentação, a adoção das salvaguardas seja rápida. "Temos de ser ágeis sob pena de estarmos perdendo empregos", disse. Ele destacou que a indústria têxtil brasileira é competitiva, tem padrão de produtividade internacional, e que os fatos indicam que os chineses não estão usando práticas comerciais leais.

O diretor de Comércio Exterior do Ciesp, Humberto Barbato, informou que a entidade solicitou ontem ao ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan, a ampliação do prazo para liquidação dos contratos de câmbio de exportação de 7 meses para 18 meses.O objetivo, segundo o executivo, é diminuir a pressão do câmbio na cotação do dólar. "Tanto as salvaguardas quanto a ampliação dos prazos de liquidação do dólar são fundamentais para que a indústria brasileira continue competitiva."