Título: Genro de deputado também é investigado
Autor: Eugênia Lopes
Fonte: O Estado de São Paulo, 25/05/2005, Nacional, p. A6
BRASÍLIA O Ministério Público Federal está investigando as atividades de Marcos Vinícius Vasconcelos Ferreira, genro do presidente do PTB, deputado Roberto Jefferson. Há indícios de que Marcos Vinícius tenha ligação com o suposto esquema de corrupção na Empresa dos Correios e Telégrafos. Também despertam o interesse dos procuradores os vínculos do genro de Jefferson - nomeado assessor da diretoria da Eletronuclear - com o corretor Henrique Jorge Duarte Brandão, da firma Assurê Corretagem de Seguros. A empresa, como revelou o Estado, financiou 20% da campanha eleitoral da vereadora Cristiane Brasil (PTB), filha de Jefferson. Em depoimento prestado anteontem ao Primeiro Ofício de Licitações e Contratos da Procuradoria da República no Distrito Federal, Jefferson disse que seu genro não só trabalhou como tem relações comerciais com Brandão. Em um dos trechos do depoimento, transcrito em documento de sete páginas, Jefferson diz que Marcos Vinícius "trabalhou como corretor juntamente com o senhor Henrique Brandão na empresa Assurê (...) e possui ligações comerciais com o aludido senhor até a presente data".
Em outra passagem, o deputado não foi tão preciso. Disse aos procuradores "que não sabe informar se Marcos Vinícius já tratou de negócios com a ECT, através do senhores Antônio Osório e Fernando Leite Godoy", respectivamente diretor de Administração e assessor de diretoria dos Correios, ambos sob suspeita de integrar o esquema de corrupção na estatal. Jefferson informou, ainda, que seu genro e o chefe do Departamento de Contratos da ECT, Maurício Marinho, flagrado recebendo propina de R$ 3 mil, não eram amigos - mas conhecidos. O deputado ressalvou que tanto Brandão quanto seu genro nunca procuraram funcionários dos Correios em seu nome. Revelou também que conhece Brandão há 30 anos, mas observou que não tem ou teve negócios com ele.
Outro personagem que desperta a curiosidade do Ministério Público é um dos mais graduados executivos da área energética: o presidente da Eletronorte, Roberto Salmeron, indicado pelo PTB. Os procuradores crêem haver indícios de ligação dele com Brandão e o genro de Jefferson. Salmeron já foi vice-presidente dos Correios. No depoimento, o deputado contou que assistiu na casa do presidente da Eletronorte à fita em que Marinho aparece recebendo propina. Disse ainda que, ao final, recomendou que o diretor Antônio Osório, chefe de Marinho, se colocasse à disposição da auditoria interna dos Correios.
Ao ser interrogado pelos procuradores, Jefferson procurou descrever Marinho como "uma pessoa pobre e doente". Negou envolvimento com a cobrança de propinas e disse acreditar que o ex-chefe de departamento "tenha montado uma estrutura própria com o objetivo de aumentar os seus rendimentos".
O presidente do PTB afirmou também que nunca teve contato direto com o ex-agente do SNI José Santos Fortuna Neves, capitão da reserva da Polícia Militar de Minas Gerais que se apresenta como "coronel Fortuna". Suas conversas, sempre segundo o depoimento, ficaram restritos ao "comandante Molina", outro profissional da espionagem que lhe disse ser "ligado ao coronel Fortuna e um grupo de empresários", sem especificar de quem se tratavam.
Jefferson admitiu ter ouvido falar na empresa HHP, que ganhou a licitação 059/2004, no valor total de R$ 34,56 milhões, para a venda de 13.910 computadores aos Correios. Pela versão de Jefferson, Fortuna procurou Marinho ameaçando tirá-lo do cargo e avisando que iria acabar com a carreira dele nos Correios. O diretor Antônio Osório, ainda de acordo com o depoimento, recebeu do próprio Jefferson a informação de que Fortuna "era ex-agente do SNI e intermediava negócios junto a empresas estatais".