Título: Exportação cresce em ritmo menor, diz estudo
Autor: Marcelo Rehder
Fonte: O Estado de São Paulo, 30/05/2005, Economia, p. B1

Ao contrário do que o governo vem pregando, a valorização do real frente ao dólar já começa a afetar o crescimento das exportações. Estudo elaborado pelo Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) mostra que a taxa de expansão das vendas de bens brasileiros no exterior caiu no primeiro trimestre, pela segunda vez consecutiva. O País exportou em média US$ 8,150 bilhões por mês no período, 25,7% mais que no primeiro trimestre de 2004. Foi o pior desempenho nos últimos cinco trimestres. Para efeito de comparação, no terceiro e quarto trimestres do ano passado, o crescimento do valor exportado tinha sido de 36,2% e 29,1%, respectivamente. "Apesar da vibração que os primeiros números do comércio exterior trouxeram, pode-se estar assistindo a análises apressadas", diz Boris Tabacof, diretor do Departamento de Economia do Ciesp. "Não é por acaso que nos últimos meses o governo tem comemorado o crescimento do superávit comercial e não mais o crescimento das exportações".

O estudo indica que o valor exportado no primeiro trimestre caiu 9% em relação ao terceiro trimestre de 2004. No caso das importações, a redução foi de apenas 4%.

Para o diretor do Ciesp, os resultados positivos da balança comercial tendem a ser sustentados mais pela queda da taxa de crescimento das importações, fruto do próprio arrefecimento do nível de atividade da economia, do que pelo aumento das exportações. Estas ainda não refletem plenamente o efeito "destrutivo" do câmbio, diz Tabacof. O motivo é simples: os contratos de boa parte dos produtos embarcados para o exterior foram fechados no ano passado, quando o câmbio ainda era favorável às exportações.

Na assinatura de novos contratos, muitas empresas têm aumentado os preços em dólar para compensar parte das perdas com o câmbio, mesmo correndo o risco de perder mercado.

A Volkswagen, maior exportadora de veículos do País, já reajustou seus preços entre 10% e 15% ."Vamos exportar 20% menos neste ano para os mercados tradicionais da América Latina, África e Oriente Médio", estima Leonardo Soloaga, gerente de Exportação.O porcentual corresponde a 25 mil carros. Contudo, a VW espera compensar a queda vendendo outro tanto para a Europa, com o lançamento recente do Fox. Mas com o dólar abaixo de R$ 2,40, precisaria aumentar mais os preços.

A Papirus, fabricante de papel para embalagens, já perdeu negócios no exterior. "Deixamos de exportar US$ 1,5 milhão para a África e Europa por causa do preço", afirma João Felipe Gil Clemente, gerente de Exportação da Papirus. A empresa vende lá fora 35% de tudo o que fabrica aqui. A valorização do real frente ao dólar ampliou problemas de custos de infra-estrutura e logística internos. Há um ano, o custo logístico era de R$ 25 por tonelada. Hoje, é de US$ 40. Ninguém consegue repassar isso para os preços, principalmente disputando mercado com asiáticos", diz Clemente.

A situação chegou chegou a tal ponto que a Ergomat, fabricante de máquinas- ferramenta, já não consegue ter rentabilidade nem mesmo nas exportações em euros, que contribuem com 70% de suas vendas externas. "Nossas margens ficaram estreitas depois que o euro perdeu um pouco a sua força perante o dólar", diz Andreas Meister, presidente da Ergomat.

Os fabricantes de calçados estão entre os mais afetados pelo dólar fraco. A Calçados Agabê se viu obrigada a transferir a produção de calçados para exportação de Franca (SP) para Aracati (CE), onde os custos são menores.