Título: O contato com o Japão
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 31/05/2005, Notas & informações, p. A3
A viagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Japão, na semana passada, valeu como um esforço para reavivar uma parceria que foi muito importante, mas perdeu vigor desde a moratória da dívida externa brasileira no final dos anos 80. No começo dos anos 70, o Brasil chegou a receber 10% dos investimentos externos japoneses. Em 2003, a fatia brasileira estava reduzida a 1,8%. O Japão, segunda maior economia do mundo, é apenas o oitavo mercado comprador de produtos brasileiros. A corrente de comércio entre os dois países, US$ 5,6 bilhões, em 2004, foi menor que a de 1997, US$ 6,6 bilhões. Um trabalho de aproximação era necessário, há muito tempo, e a iniciativa do governo do presidente Lula foi positiva principalmente por isso.
Os contratos de financiamentos e de negócios, no valor de US$ 2,1 bilhões, envolveram poucas e grandes empresas brasileiras, vinculadas principalmente aos setores de energia e de mineração, áreas de importância estratégica para a economia japonesa. Envolveram-se nos maiores acordos a Petrobrás, a Vale do Rio Doce, a Eletrobrás e a Etesco, fabricante de tubulações para petróleo e gás. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social obteve um empréstimo para financiar obras de infra-estrutura e indústrias exportadoras.
São acordos modestos, do ponto de vista japonês, mas os contatos podem ter sido o começo de novas e duradouras parcerias. O presidente Lula repetiu o que vem dizendo a várias platéias: que o Brasil tem uma política de estabilidade voltada para objetivos de longo prazo e que novas imprudências não serão cometidas.
Mais de 15 anos depois da última moratória, autoridades brasileiras ainda têm de levar esse recado a toda parte. Parece que vêm conseguindo convencer os interlocutores, embora na própria base do governo ainda haja defensores da frouxidão fiscal e monetária e do calote, animados pelo aparente sucesso da moratória argentina. Com os japoneses, o diálogo parece haver progredido.
A idéia de um Brasil mais sério e mais comprometido com a estabilidade foi assimilada, aparentemente, por executivos privados e funcionários governamentais do Japão, que agora cobram de Brasília medidas microeconômicas, iniciativas destinadas a facilitar a operação dos mercados e a desemperrar a atividade das empresas. São condições insuficientes, mas necessárias para a atração de investimentos.
Nenhum grande resultado comercial, a curto prazo, foi produzido pela viagem. O presidente Lula e seus ministros foram ao Japão com a ambição declarada de abrir um grande mercado para o etanol brasileiro. O Brasil já é o maior exportador de álcool para o mercado japonês. Em 2004, forneceu 320 milhões de litros, dois terços do álcool importado por aquele país. Poderia vender muito mais, se os distribuidores de combustíveis japoneses se dispusessem a misturar 3% de etanol na gasolina, proporção legalmente permitida, mas não obrigatória. A indústria japonesa, segundo ficaram sabendo os brasileiros, não pretende investir na distribuição de álcool, mas poderá adotar um aditivo mais complexo, que inclui etanol.
Não há decisão sobre o assunto e o governo brasileiro conseguiu, por enquanto, a concordância para a formação de um grupo de trabalho, com ministros dos dois países, para o exame do possível aproveitamento do álcool carburante.
Sendo o Brasil o maior e o mais eficiente produtor de etanol, a conquista de um mercado como o japonês deve ser, naturalmente, um de seus projetos comerciais mais importantes. Mas o comércio com o Japão certamente oferece outras oportunidades, que o setor privado poderá identificar, se houver suficiente empenho. As maiores entidades empresariais, como a Fiesp e a Confederação Nacional da Indústria, podem desempenhar um papel importante na busca dessas oportunidades.
A busca de um Acordo de Parceria Econômica, modalidade mais ampla que um acordo de livre comércio, já entrou na agenda, mas é um projeto complicado e a sua negociação consumirá vários anos. Nem mesmo é um acerto que o Brasil possa realizar sem o envolvimento do Mercosul. Mas desde já o empresariado pode buscar os caminhos para a ampliação de negócios, aproveitando a onda de boa vontade entre os dois países.