Título: Vasp corre hoje contra o relógio
Autor: Mariana Barbosa, Renata Veríssimo e Alberto Komats
Fonte: O Estado de São Paulo, 31/05/2005, Economia, p. B16

O empresário Wagner Canhedo, dono da Vasp, terá de apresentar até às 13 horas de hoje uma carta de fiança do Banco do Brasil, no valor correspondente a R$ 40 milhões. Esta é a primeira garantia prevista no acordo firmado na sexta-feira na 14.ª Vara da Justiça do Trabalho entre o empresário e trabalhadores da empresa aérea, que parou de voar em janeiro. A formalização da caução suspende a intervenção judicial, que teve início em março, devolvendo a gestão da empresa ao empresário. No entanto, a não apresentação da garantia irá caracterizar descumprimento do acordo. Neste caso, os bens da Vasp e de seus controladores, que permanecem indisponíveis, poderão ser apreendidos pela Justiça.

Além desta garantia, a Vasp tem até a sexta-feira para quitar a folha de pagamentos em atraso. Já as rescisões trabalhistas dos quase 2 mil funcionários dispensados em outubro passado, quando a empresa reduziu drasticamente sua malha, terão de ser quitadas até 17 de junho. Tudo isso representa mais de R$ 40 milhões. Pelos cálculos da comissão de intervenção, porém, a dívida total da empresa com os trabalhadores pode passar de R$ 400 milhões.

Nos sindicatos do setor aéreo é grande a expectativa em relação ao cumprimento do acordo. "A ansiedade dos trabalhadores é muito grande e esperamos que a questão se encaminhe de forma positiva", afirma a presidente do Sindicato Nacional dos Aeronautas, Graziella Baggio. "Só vamos comemorar quando o trabalhador receber os atrasados", completa o presidente do Sindicato dos Aeroviários do Estado de São Paulo, Uébio José da Silva.

Para o Ministério Público do Trabalho, que há cinco anos move ações contra os controladores da Vasp, a assinatura do acordo é uma grande vitória para o trabalhador. "O acordo prevê uma série de garantias", afirma a procuradora Viviann Rodriguez Mattos.

Segundo um interlocutor da Vasp, o acordo trabalhista é parte das negociações para a venda do controle acionário da aérea para uma empresa do Rio chamada GBDS . O valor do depósito caução e dos demais pagamentos será considerado como parte do pagamento. Segundo registros oficiais, a GBDS atua nos ramos de administração, desenvolvimento e informática, soluções tecnológicas e assessoria de pesquisa de novos produtos.

Uma eventual venda da Vasp para a GBDS é vista com desconfiança por analistas. A empresa não tem nenhum grande ativo, tem uma frota ultrapassada e uma dívida de R$ 2 bilhões com o governo. "Como alguém sério vai investir em um negócio que parte de um negativo de R$ 2 bilhões?", pergunta um analista que não quis se identificar.

A avaliação que se faz no setor é de que o acordo trabalhista seria uma manobra de Canhedo para conseguir renovar a concessão da Vasp, que vence no dia 10 de junho. A venda do controle acionário, por sua vez, permitiria ao empresário sair do negócio de aviação com seus bens desbloqueados.

Ontem, a reportagem foi até à sede oficial da GBDS, na Rua Voluntários da Pátria, 113, bairro de Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro. No local, no entanto, está o recém-construído prédio comercial Botafogo Trade Center, ainda desocupado. A central de vendas da Nigri Engenharia, dona do empreendimento, informou que não conhecia a GBDS e que ela, assim como a Vasp, não mostrou interesse em alugar ou comprar qualquer andar ou sala. A reportagem também deixou recados no escritório do advogado da GBDS, Carlos Eduardo Rédua Gonçalves, mas não obteve retorno.