Título: Constituinte não acalma Bolívia
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Fonte: O Estado de São Paulo, 04/06/2005, Internacional, p. A18

Numa tentativa de pôr fim aos protestos que há duas semanas paralisam o país, o presidente boliviano, Carlos Mesa, antecipou-se ao Congresso e decretou a convocação de uma Assembléia Constituinte e de um referendo sobre autonomia regional para 16 de outubro. O anúncio, feito na noite de quinta-feira (madrugada de ontem no Brasil), no entanto, não aplacou as manifestações dos grupos indígenas e sindicais nem satisfez as províncias que exigem autonomia. Em desafio à medida de Mesa, movimentos autonomistas do Departamento (província) de Santa Cruz reafirmaram a decisão de realizar um referendo convocado unilateralmente para 12 de agosto. Acompanharam a decisão de Santa Cruz - o departamento mais próspero da Bolívia - as regiões de Tarija, Beni e Pando, no leste do país.

Além de não frear as manifestações - que ontem ameaçavam causar desabastecimento de alimentos e combustíveis em La Paz -, o decreto de Mesa se converteu num problema a mais para seu governo. Deputados da oposição o interpretaram como um atropelo das funções do Congresso, questionando sua constitucionalidade.

"Esse decreto é totalmente extemporâneo. É uma tentativa ilegal de desmobilizar todo o povo boliviano", reagiu o líder opositor Evo Morales, do esquerdista Movimento ao Socialismo (MAS).

O empresário Gabriel Dabdoub, de Santa Cruz, acusou Mesa de promover um "fujimoraço" - uma referência ao "autogolpe" desfechado em 1992, no Peru, por Alberto Fujimori. "O presidente Mesa já não responde aos bolivianos", disse Dabdoub. Ele pretende seguir governando, mas não pode fazer isso do modo que fez agora, passando por cima do Congresso."

Nos últimos dias, a intensificação dos protestos nas vizinhanças da sede do Congresso e a falta de acordo entre os deputados impediram o debate parlamentar sobre a convocação da Assembléia Constituinte e o referendo sobre autonomia. Uma nova sessão está marcada para terça-feira.

Organizações de camponeses indígenas na região dos Andes qualificam de "fascistas" e "racistas" os grupos que defendem a autonomia dos departamentos mais ricos. Por seu lado, empresários de Santa Cruz acusam os movimentos indígenas de defender um modelo econômico estatista, afugentando o investimento estrangeiro.

Ontem à tarde, o vice-ministro da Justiça, Carlos Alarcón, anunciou que o ministro do Desenvolvimento Econômico, Walter Kreidler - que teria sido o único membro do gabinete a discordar da decisão de Mesa de emitir o decreto - tinha renunciado. À noite, porém, a versão de demissão de Kreidler foi desmentida.