Título: O mau uso das pedras
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 15/06/2005, Notas & Informações, p. A3

No afã de persuadir os brasileiros da sua inabalável determinação de combater o que possa haver de crime organizado no seu governo, sob a forma de venda de facilidades na administração e compra de apoios no Congresso, o presidente Lula subiu de tom. Uma semana depois de dizer que não hesitará, se preciso, em ¿cortar na própria carne¿, apelou para outro clichê, ainda mais tonitruante. No programa de rádio Café com o presidente, prometeu que ¿não deixaremos pedra sobre pedra¿ para apurar as denúncias de malfeitos. Faltou combinar com os fatos. Desde que a oposição se pôs a recolher assinaturas para a CPI dos Correios, o Planalto se muniu de pedras pontiagudas para lapidar a iniciativa no nascedouro, a ponto de envolver ninguém menos do que o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, o fiador do governo, no varejo do toma-lá (verbas orçamentárias) e dá-cá (as assinaturas no requerimento do inquérito). Tendo fracassado, o partido de Lula cortou na própria carne: de um lado, removendo o senador signatário Eduardo Suplicy da chapa oficial para a renovação do comando da sigla; de outro, pela boca do ministro José Dirceu ¿ que ainda ontem dizia que só faz o que o presidente manda ¿, advertindo os 14 deputados que mantiveram as suas firmas no pedido até o fim de que não terão legenda para as próximas eleições, de modo que melhor fariam se fossem buscá-la em outro lugar.

Depois, com a cegueira que os deuses infligem àqueles a quem querem destruir, o governo tentou colocar uma pedra sobre a CPI, sob a espantosa alegação de que lhe faltava um ¿fato determinado¿, o que a tornaria inconstitucional. A grita e o desgaste resultantes levaram o Planalto a adotar a tática do ¿derrotar o sistema por dentro¿: o PT aderiu à investigação parlamentar, apenas para mantê-la sob o seu estrito controle, negando à oposição que o nome por ela indicado pudesse ocupar a sua presidência ou relatoria. Ao mesmo tempo, em um pueril exercício de diversionismo, reivindicou uma CPI da Compra de Votos, que remontaria à votação da emenda que instituiu a reeleição, há oito anos, enquanto o presidente mandava o ministro da Justiça preparar uma reforma política a toque de caixa.

O mais grave de tudo, porém, para quem hoje fala em cortar e demolir, foi a aparente indiferença com que recebeu o que terá sido a primeira informação a chegar até ele sobre proposta de pagamento de mesadas a parlamentares ¿ agora o primeiro caso também em que a pessoa visada confirma a abordagem. Há pouco mais de um ano, o governador goiano Marconi Perillo, do PSDB, confidenciou a Lula que dois correligionários lhe disseram ter sido procurados por um político da base aliada para se filiarem a um dos partidos do bloco de apoio ao governo.

Segundo o relato do governador, que tornou público o episódio na semana passada ¿ e em momento algum foi contestado pelo Planalto ¿, Lula desdenhou da denúncia, replicando que isso acontecia no governo passado. Perillo devolveu: ¿Não, presidente, estou falando do seu governo.¿ E Lula nada mais disse.

Admita-se que tenha preferido silenciar naquela hora. Mas, ao que se saiba, depois ele não moveu um pedregulho para elucidar o caso. O mínimo que se poderia esperar de um presidente da República que fala em não deixar pedra sobre pedra na apuração de suspeitas de corrupção ¿ a menos que só agora tenha se lançado ao combate sem tréguas à maracutaia ¿ era que determinasse aos seus assessores políticos que investigassem a fundo o assunto e tomasse as providências apropriadas ao que viesse a ser descoberto.

O que a opinião pública tira do episódio ¿ ao menos desde ontem, quando a deputada e atual secretária de Ciência e Tecnologia do Estado, Raquel Teixeira, confirmou que tinha sido ¿convidada a mudar de partido¿, em troca de ¿dinheiro também¿, como noticiara este jornal ¿ é mais um indício veemente de que um abismo separa o que Lula diz do que Lula faz.

É bem verdade que ela foi categórica em negar que o ¿deputado da base aliada do governo¿ que a procurou tenha citado o ministro da Casa Civil, José Dirceu, ou o tesoureiro do PT, Delúbio Soares ¿ os quais o deputado Roberto Jefferson acusou, um, de ¿saber tudo¿ do esquema das mesadas, outro, de comandá-lo. Mas um presidente guardião da ética não poderia ter se omitido no caso ¿ se é que disso se trata.