Título: Faculdade vai reforçar os trunfos de Salinas
Autor: Fernando Dantas
Fonte: O Estado de São Paulo, 12/06/2005, Economia, p. B11
A cidade vai ter em breve uma faculdade de cachaça. Em julho, começa em Salinas o primeiro curso superior de tecnólogos em cachaça do Brasil. O curso, que estará oferecendo 60 vagas a partir de 2006, é um aprofundamento das atividades da Escola Agrotécnica Federal de Salinas. Seu coordenador é Oscar William Barbosa Fernandes. A faculdade é mais um desdobramento de uma feliz combinação de fatores que faz da pequena cidade mineira de 37 mil habitantes a capital da cachaça de alta qualidade no Brasil. Segundo Noé Santiago Soares, um dos mais venerados produtores da cidade, "mesmo a pinga ruim de Salinas é melhor que a de outros lugares". Descontado o exagero compreensível dos Santiagos, responsáveis por trazer ao mundo a mitológica cachaça Anísio Santiago, ex-Havana, muitos especialistas concordam que a qualidade média da bebida em Salinas e municípios vizinhos é excepcional.
A hipótese mais forte para explicar o fenômeno é a qualidade diferenciada da cana na microrregião, rica nos açúcares e microorganismos necessários a uma boa fermentação. A teoria, não comprovada cientificamente, é que a combinação do clima seco, com alta insolação, e terras muito férteis seria responsável pela cana da qual é produzida a cachaça de buquê agradável e sabor leve (o que não quer dizer teor alcoólico baixo) e lembrando frutas.
Mas nem só dos dons gratuitos da natureza se fez a reputação de Salinas. Os produtores da cidade passaram por um gradual processo de aperfeiçoamento desde que o produto foi introduzido na região, no século 19. Uma das dimensões deste aprendizado é a transmitida no trabalho cotidiano familiar.
Um exemplo é o alambiqueiro Armindo Teodoro da Barra, 57 anos, 35 anos de experiência, iniciada trabalhando para Anísio Santiago, e continuada no atual emprego com os produtores da Canarinha. Com escolaridade interrompida no segundo ano primário, Armindo resume o segredo da cachaça de Salina com uma frase: "Vai da terra até chegar na garrafa".
Este conhecimento tradicional foi fortemente complementado nas últimas décadas pelo intenso desenvolvimento regulatório e técnico, calcado na fiscalização do governo e nas atividades da Escola Agrotécnica e da Empresa de Extensão Rural (Emater), que foram forçando e inculcando nos produtores tradicionais padrões rigorosos de higiene, tecnologia e qualidade. Com a faculdade da cachaça, Salinas dá mais um passo para firmar sua posição privilegiada na produção da bebida.