Título: Cúpula da UE começa cercada de pessimismo
Autor: Reali Júnior
Fonte: O Estado de São Paulo, 16/06/2005, Internacional, p. A17

A cúpula de dois dias dos líderes dos 25 países da União Européia (UE) começa hoje em Bruxelas com uma previsão pessimista de seu presidente em exercício, o primeiro-ministro de Luxemburgo, Jean-Claude Juncker. "É quase certo que não vamos chegar a um acordo sobre o orçamento para o período 2007-2013", disse, referindo-se a posições aparentemente irreconciliáveis sobre a questão entre França e Grã-Bretanha. Se a preavisão estiver correta, a UE, que já vive um dilema político causado pela rejeição de sua Constituição por franceses e holandeses, vai mergulhar também numa crise financeira de proporções ainda não mensurada.

O fracasso da reunião de terça-feira na capital francesa entre o presidente francês, Jacques Chirac, e o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, contribuiu para aumentar o ceticismo que envolve os líderes europeus. No encontro de Paris, Blair rejeitou pedido de Chirac para redução do cheque inglês, reembolso que a Grã-Bretanha recebe sobre sua contribuição ao orçamento da UE ( equivalente a US$ 5 bilhões anuais). E Chirac, em contrapartida, rechaçou a reivindicação de Blair para uma ampla reformulação da Política Agrícola Comum (PAC), que privilegia a agricultura francesa com 25% (cerca de US$14 bilhões) de toda a ajuda da UE para o setor. De um orçamento de mais de US$ 116 bilhões, 40% são destinados à agricultura.

Diante desse quadro de impasse na área financeira, os líderes europeus deverão avaliar a situação criada com a rejeição da Carta da UE por franceses e holandeses. E procurar uma saída política, já que, para vigorar, a Carta tem de ser ratificada por todos os membros da UE.

O clima de incerteza que ronda o encontro levou José Manuel Durão Barroso, presidente da Comissão Européia (órgão executivo da UE), a mudar radicalmente de posição. Ele defendia a manutenção do processo de ratificação,mas agora acha que melhor seria adotar uma pausa para reflexão - posição defendida por Blair.

Em relação à ameaça de crise financeira, Barroso lançou um apelo à França. Pediu uma atitude mais flexível. "Todos devem ceder um pouco", disse.

Num debate sobre a Europa no Parlamento, o primeiro-ministro Dominique de Villepin reafirmou a posição francesa. Advertiu que não se deve adicionar à crise política vivida pela UE uma outra crise, financeira. Num claro recado ao governo britânico, Villepin alertou para a possibilidade de uma paralisação parcial do continente europeu. Ele fixou alguns itens que serão defendidos hoje pela França na cúpula de Bruxelas: respeito de todos os membros à disciplina orçamentária, aos compromissos assumidos, em particular à PAC, e ao principio da eqüidade, que estaria sendo atropelado pelo cheque inglês.