Título: Ditadura eliminou uma geração de intelectuais
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 16/06/2005, Internacional, p. A18

Assassinato de artistas, professores, universitários e jornalistas deixou um vazio que até hoje não foi preenchido

O que teria acontecido com o Brasil se entre 1964 e 1985 tivessem sido assassinadas figuras como o então sociólogo Fernando Henrique Cardoso, músicos como Chico Buarque e Gilberto Gil, atores como Ney Latorraca, cartunistas como Ziraldo, líderes sindicais como Luiz Inácio Lula da Silva, empresários progressistas, jornalistas e professores universitários? O desaparecimento da nata da sociedade brasileira e dos formadores de opinião não ocorreu em larga escala. Mas ocorreu na Argentina, em um período de sete anos. Entre 1976 e 1983, 30 mil pessoas foram eliminadas pela ditadura militar. Isso equivale a 1 morto em cada grupo de 900 pessoas. Entre os assassinados estavam artistas, políticos, professores e estudantes universitários, sindicalistas e jornalistas.

A ferida causada pela ditadura continua aberta ainda hoje por causa da ausência destes milhares de desaparecidos, cuja maioria formaria parte do conjunto de líderes da geração de 50 a 60 anos de idade. Além deles, faltam representantes da geração dos 40 aos 50 anos, na época jovens que prometiam ser potenciais líderes nas diversas esferas da sociedade.

Esta ausência de argentinos teve duros impactos na área intelectual, política e econômica do país. Os mortos, junto a dezenas de milhares de exilados políticos, deixaram a Argentina com um vázio nunca mais preenchido. Coincidência ou não, desde a ditadura a Argentina encerrou um período de mais de 80 anos de prosperidade que a tornaram conhecida como a Europa da América do Sul, para mergulhar em um gradual processo de declínio econômico, político e cultural sem precedentes neste continente.

"Os militares mataram uma geração que poderia ter produzido uma mudança importante na liderança política e cultural", disse ao Estado a analista de opinião pública Graciela R¿mer, ela própria, auto-exilada. "A ausência dessa geração causou uma anestesia intelectual no país, um impacto em todas as esferas da sociedade." Segundo R¿mer, além dos mortos da ditadura, "a fuga de cérebros tem a ver com a degradação dos líderes políticos e o achatamento da intelligentsia nacional".

Mas, segundo a analista, este massacre foi possível em parte graças à cumplicidade ou omissão de setores da sociedade argentina. "As pessoas sabiam, por vias diretas ou relatos de amigos, que estavam ocorrendo graves violações dos direitos humanos e civis estavam sendo assassinados em grande escala. De certa forma, isso se parece ao comportamento dos alemães durante o 3.º Reich, que diziam não saber nada sobre os horrores dos campos de concentração. Aqui houve mecanismos psicológicos de fuga da realidade. E isso não terminou com o fim da ditadura. Ainda hoje há muitas pessoas que sabem o que aconteceu com os desaparecidos e não contaram coisa alguma."

O impacto da ditadura permanece até hoje na produção cinematográfica, já que todos os anos estréia um filme que tem o regime militar como pano de fundo.