Título: Consumidor deixa de comprar para pagar juros
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Fonte: O Estado de São Paulo, 16/06/2005, Economia, p. B1
Por causa dos elevados juros ao consumidor, que seguem a Selic, o vendedor Derly Ayres Néias, de 59 anos, e sua esposa Luz Maria Sanches Arzo Ayres Néias, de 54, tiveram de pagar cerca de R$ 10 mil ao banco, apenas este ano. Para tentar ajudar a irmã, Derly fez um empréstimo. Com o tempo perdeu o controle da situação financeira e começou a atrasar as prestações. Juros sobre juros e o vendedor se afundou nas dívidas. Sem renda suficiente para acertar todas as prestações, teve que conter as despesas em casa. Não para quitar os maiores devedores - cartão de crédito e o empréstimo -, mas para amortizar os juros. "Entrei em uma bola de neve", diz ele.
Hoje, sem talão de cheque, que foi retirado pelo banco, Derly só compra à vista. Admite que desliga todos os eletrodomésticos na sua residência. No supermercado, leva somente o necessário. "Tento controlar para sobreviver", conta o vendedor.
Ele explica que tinha consciência dos juros do empréstimo, porém, era o último recurso disponível. E o pior, sob o seu ponto de vista, é ver as taxas aumentarem a cada mês. Principalmente a de seu cartão de crédito. Segundo Luz Maria, mesmo com o pagamento do mínimo possível e o saldo tende apenas a crescer. "Agora só me restar vender os meus bens para pagar essas contas", afirma o vendedor.
Até na vida profissional, Derly diz ter sido afetado: "Muitos clientes não pagam, recebo cheques sem fundo. As vendas estão cada vez mais baixas."
Numa situação um pouco melhor, mas também desconfortável, está o pedreiro Gedeval Souza Ramos, de 53 anos. Queria comprar um carro, mas faltava o dinheiro. Optou pelo financiamento e agora reclama: "Saiu bem mais caro." Mais até do que podia pagar e as prestações acumularam e os juros passaram a devorar boa parte do seu salário. "Paguei uns R$ 300 só por ter atrasado seis prestações", conta. Isso, segundo ele, sem somar os juros do financiamento.
Além do carro, Ramos também enfrentou as altas taxas do parcelamento de uma televisão: "Dava para comprar duas à vista com o que paguei a prazo". Agora, ele afirma pagar e levar e mesmo assim não consegue se livrar do pesadelo dos juros. Sempre acaba no especial e arca com os juros. "Dava para comprar um monte de coisas com o que pago ao banco", ressalta.