Título: No Irã, um regime não tão totalitário
Autor: Christopher de Bellaigue
Fonte: O Estado de São Paulo, 17/06/2005, Internacional, p. A20

O governo Bush não está impressionado até agora com as eleições iranianas, nas quais será escolhido hoje um substituto para o presidente Mohamad Khatami. Depois da desqualificação de mais de mil candidatos presidenciais no mês passado pelo Conselho dos Guardiães, um organismo de vigilância constitucional não eleito, a secretária de Estado Condoleezza Rice observou que o Irã está "em total descompasso" com a tendência de democracia no Oriente Médio. Ouvindo isso em Teerã, meu lar desde 2000, lembrei de uma observação feita por Condoleezza no começo do ano, de que a República Islâmica é um regime totalitário. Nenhum estudioso da antiga União Soviética, como Condoleezza, aplica a palavra "totalitário" levianamente. Totalitário significa uma ideologia oficial que interfere em todas as esferas da vida, eleições manipuladas cujos resultados são instituídos bem antes de sua realização e intolerância impiedosa para quem ousar desafiar a ortodoxia.

À luz dos comentários de Condoleezza sobre as eleições iranianas, os americanos poderiam lembrar a "eleição" final e farsesca que Saddam Hussein usou para legitimar seu regime condenado (na qual venceu com mais de 99% dos votos). Imaginando a vida de um iraniano típico, eles poderiam pensar em K de Kafka e Winston Smith de Orwell - indivíduos oprimidos por um vasto e institucionalizado mal.

Mal (como em "o eixo do"), totalitário - essas palavras circulam facilmente pelas bocas de autoridades em Washington, mas não batem com a realidade. Aqui, na Teerã "totalitária", posso me sentar num táxi compartilhado e ouvir cinco pessoas, todas estranhas entre si, discutindo a hipocrisia e venalidade de seus dirigentes.

O Irã é muitas vezes descrito como uma "ditadura religiosa", mas aqui se pode comprar romances surrealistas que tratam de abuso de drogas e homossexualismo.

O mais significativo de tudo é que os iranianos não estão mais seguros de quem vencerá as eleições do que estavam os americanos em novembro. A eleição com certeza será fraudada - e não só pelos misteriosos atentados que mataram nove pessoas nos últimos dias.

Algumas críticas, no entanto, fazem sentido. Embora poucos iranianos discordem da desqualificação de alguns candidatos, o impedimento de todas as candidatas mulheres por conta de seu gênero é escandaloso. O principal candidato reformista, Mustafá Moin, foi autorizado a competir só porque o líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, derrubou a decisão do Conselho dos Guardiães.

Muitos iranianos - talvez a maioria - não se darão ao trabalho de votar porque acreditam que o presidente não tem o poder de impedir Khatami de governar o país.

Ontem Bush disse que no Irã "o poder está nas mãos de uns poucos que não foram eleitos". O governo do Irã rebateu, dizendo que nos EUA só costuma haver dois candidatos - ou democrata ou republicano.