Título: Tratoraço espera 15 mil em Brasília
Autor: Fabíola Salvador
Fonte: O Estado de São Paulo, 28/06/2005, Economia & Negócios, p. B6

Produtores exigem novas medidas de apoio ao setor agrícola, mas temem que protesto seja prejudicado pela crise política

O tratoraço que os agricultores programam para hoje e amanhã, em Brasília, para exigir novas medidas de apoio ao setor, poderá ser prejudicado pela crise política. "A hora para o tratoraço é péssima, mas não podemos esperar", reconheceu o presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Antônio Ernesto de Salvo. "No momento em que a agricultura precisa de definições, o governo está paralisado por causa de problemas políticos." De Salvo afirmou, porém, que "quem está errado é o escândalo, não os agricultores". Mais de 15 mil produtores rurais de todo o País, de acordo com a CNA, participarão dos protestos. Cerca de 2 mil máquinas serão estacionadas na Esplanada dos Ministérios. Um grupo de produtores espera ser recebido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva amanhã. O Ministério da Agricultura não comentou o movimento.

A safra 2005/06 começa a ser cultivada em meados de setembro, e o presidente da CNA disse que é preciso uma "decisão imediata do governo". Os produtores pedem, entre outros pontos, autorização para fazer compras a prazo junto a fornecedores de insumos e máquinas.Querem também a renegociação das dívidas e recursos para subsídio do seguro rural.

PIOR CRISE

Na avaliação do presidente da CNA, o governo tem condições de resolver o problema do setor agrícola. "O faturamento do setor primário deve fechar o ano em R$ 170 bilhões e resolver a crise do setor agrícola demandaria entre R$ 5 bilhões e R$ 26 bilhões", calculou De Salvo.

Os produtores alegam que o aumento dos custos de produção, câmbio desfavorável ao comércio exterior, quebra de 18 milhões de toneladas na safra e queda nos preços internacionais levaram o setor à "pior crise de todos os tempos no setor".

Participam da manifestação em Brasília produtores do Maranhão, Piauí, Bahia, Tocantins, Distrito Federal, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

De acordo com o coordenador do movimento pelo Mato Grosso, Homero Alves Pereira, o governo só disponibiliza dinheiro para financiar de 20% a 25% das necessidades dos produtores do Centro-Oeste para cultivo da safra. O restante são linhas comerciais que cobram taxas de juros superiores aos 8,75% do crédito rural. "A crise da agricultura vai refletir em outros segmentos da economia", afirmou.

SOLUÇÕES

No Mato Grosso, segundo ele, cadastros do Ministério do Trabalho indicam demissão de 32 mil pessoas nos dois últimos meses. Ele também pediu a redução dos encargos que incidem sobre os insumos agrícolas.

"Somos globalizados para vender nossa produção, mas não temos como comprar agroquímicos pelos mesmos preços dos demais agricultores do Mercosul", disse Pereira.

Já o presidente da Federação de Agricultura do Mato Grosso do Sul (Famasul), Léo Brito, cobrou soluções de longo prazo. Ele reclamou da infra-estrutura do País e da lentidão do governo em liberar produtos destinados à atividade agrícola.