Título: Governo e tratoraço não cedem
Autor: Fabíola Salvador
Fonte: O Estado de São Paulo, 01/07/2005, Economia & Negócios, p. B7
Impasse paralisa as negociações centradas no aumento do preço do arroz e no adiamento da dívida de custeio
Um impasse paralisou as negociações de novas medidas para socorrer o setor agrícola, ontem. Num esforço para chegar a um entendimento, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reuniu-se na noite de ontem com os ministros da Agricultura, Roberto Rodrigues; da Fazenda, Antonio Palocci; e com o líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP). Enquanto isso, deputados e senadores da bancada ruralista aguardavam o resultado da reunião no gabinete de Rodrigues. Segundo o senador Sérgio Guerra (PSDB-PE), as negociações estavam centradas ontem em dois pontos: o aumento do preço mínimo para o arroz e o adiamento dos pagamentos da dívida de custeio, cujos vencimentos ocorrem entre julho e novembro. Além disso, os participantes do tratoraço não consideraram suficientes os R$ 3 bilhões em novos recursos anunciados anteontem e exigiam mais R$ 3 bilhões.
O governo concordou em elevar o preço mínimo do arroz de R$ 22,00 para R$ 23,00 a saca, segundo informou o deputado Luiz Carlos Heinze (PT-RS). Os agricultores, porém, exigiam R$ 24,00. Por outro lado, o governo não concordou em adiar o vencimento das dívidas dos agricultores, alegando que a falta de pagamento neste ano prejudicaria o financiamento da próxima safra.
Causou irritação entre os manifestantes, ainda, o fato de o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, não comparecer a uma reunião técnica combinada anteontem. Essa reunião, com Rodrigues e Mercadante, foi marcada para as 10 horas da manhã. Palocci pediu para adiar porque iria à posse do novo procurador-geral da República, Antônio Fernando de Souza. O encontro foi adiado para as 13h30, mas não ocorreu. Pouco antes das 16h00, a Assessoria de Imprensa de Palocci anunciou que o ministro não foi à reunião porque já tinha conversado com Rodrigues no Planalto.
DÚVIDAS
Na avaliação do deputado Ronaldo Caiado (PFL-GO), a indefinição sobre o encontro "mostra que o governo está empurrando com a barriga" as decisões que deve tomar. Ele colocou em dúvida a intenção do Ministério da Fazenda de cumprir o que foi informalmente anunciado, a liberação de R$ 3 bilhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Sugeriu, ainda, que o governo desloque verbas inicialmente previstas para o Moderfrota, um programa do BNDES para financiar a compra de máquinas e equipamentos, e já coloque o dinheiro à disposição para os agricultores rolarem as dívidas.
Segundo Heize, os produtores insistem na renegociação das parcelas do Programa Especial de Saneamento de Ativos (Pesa) e securitização que vencem neste ano, totalizando R$ 300 milhões. "Se o produtor não tem condições de pagar a dívida de investimento e de custeio, também não terá condições de quitar os débitos do Pesa e da Securitização", afirmou. O governo, porém, não quer ceder nesse ponto.