Título: Generais negam plano de retirada
Autor: Paulo Sotero
Fonte: O Estado de São Paulo, 12/07/2005, Internacional, p. A16
WASHINGTON - Os comandantes militares americanos no Iraque negaram ontem que estejam sendo pressionados a preparar-se para uma retirada às pressas. O corte, a concretizar-se, representaria um encolhimento para menos da metade do atual efetivo de cerca de 140 mil soldados americanos no território iraquiano. Segundo um memorando secreto britânico, "planos dos EUA em elaboração partem da premissa de que 14 das 18 províncias (do Iraque) podem pass ar para o controle dos iraquianos já em 2006". A informação sobre o memorando secreto do governo britânico vazou no domingo para o jornal The Mail on Sunday. O secretário britânico da Defesa, John Reid, não negou a autenticidade do documento, mas fez uma ressalva: nenhuma decisão final foi tomada.
O documento informou também que há um debate em curso entre, de um lado, o Pentágono e o Comando Central (Centcom) - baseado na Flórida, que dirige as tropas mobilizadas no Oriente Médio e na Ásia - e, de outro, o comando das forças da coalizão no Iraque. O Centcom, comandado pelo general John Abizaid, favorece uma redução relativamente mais ousada nos números da força. O comandante das forças no Iraque, general George Casey, é mais cauteloso.
O governo do presidente George W. Bush resiste a iniciativas de congressistas para fixar um prazo para o início da retirada das tropas americanas do Iraque - afirmando que isso daria o sin al errado ao inimigo.
Embora não seja necessariamente inconsistente com a promessa de Bush de equilibrar a diminuição do engajamento americano no Iraque com a capacidade dos iraquianos de assumir a responsabilidade de zelar pela segurança do país, o documento britânico é significativo por ser o primeiro a mostrar que o cenário da saída americana já está em discussão nos altos escalões em Washington.
Dois fatores domésticos nos EUA operam em favor desse cenário: a impopularidade crescente da guerra na opinião pública americana e a dificuldade cada vez maior que o Pentágono vem encontrando para recrutar novos soldados voluntários e convencer os que já vestem uniforme a renovar seus contratos de quatro anos de serviço com as Forças Armadas e estender seu tempo de alistamento. De acordo com o New York Times, o problema é complicado pelas dores de cabeça para os comandantes no teatro de operações para preencher posições críticas de intendência e apoio às tropas.
Estas funções são desempenhadas em sua maioria por membros dos corpos de reserva dos quatro ramos das Forças Armadas americanas (Exército, Marinha, Fuzileiros Navais e Aeronáutica) e pela Guarda Nacional. Os reservistas e os membros da Guarda Nacional, que servem por períodos máximos de 24 meses, representam cerca de 35% do contingente americano no Iraque.
"Por volta de setembro de 2006 teremos esgotado nossa capacidade de usar brigadas da Guarda Nacional como uma das forças principais", disse ao New York Times o general da reserva Barry McCaffrey, que em junho foi ao Iraque, a pedido do Pentágono, avaliar a situação. "Estamos chegando ao fundo do tacho", acrescentou.