Título: INTERNACIONAL O ESTADO DE S.PAULO
Quarta-feira, 13 de Julho de 2005
Ken, o discreto, e Rudy, o líder
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 13/07/2005, Internacional, p. A14
Ken Livingstone, o prefeito de Londres, responde aos atentados de forma oposta à de Rudolph Giuliani em Nova York
LONDRES - Ken Livingston, o prefeito de Londres de 60 anos, apareceu como uma espécie de anti-Giuliani logo depois dos ataques terroristas, os piores que esta cidade jamais sofreu. Ele fez dois pronunciamentos solenes dignos de Winston Churchill, mas afora isso, manteve uma atitude notavelmente discreta para um homem que tem marcado seus últimos 25 anos na política com planos ousados e debates contundentes, inclusive com o primeiro-ministro Tony Blair. Em Londres, não se tem visto nada parecido com o que aconteceu em Nova York depois do 11 de setembro de 2001. Rudolph (Rudy) Giuliani, o então prefeito de Nova York, comandou as operações de resgate, consolou os parentes das vítimas e tentou colocar ordem na situação. Dessa forma, ganhou o carinho dos eleitores, que gritavam "Rudy, Rudy, Rudy" quando ele aparecia em público, e se projetou no cenário político nacional dos EUA. Só não foi reeleito para um terceiro mandato porque a lei proíbe. Londres não é de Livingstone como Nova York era de Giuliani. Aliás, o nova-iorquino estava visitando Londres no dia dos ataques a apareceu na televisão antes de Livingstone. Para alguns, Red Ken (Ken, o Vermelho), como ele já foi conhecido por suas enfáticas posições esquerdistas, atingiu o tom certo de humildade, indignação e calma. Mas pode haver algo mais em jogo. No ano passado, Livingstone foi fustigado por convidar o clérigo conservador, xeque Youssef al-Qaradawi , do Catar, no que foi, para os defensores de Livingstone, uma tentativa de demonstrar a disposição do prefeito ao diálogo para os jovens muçulmanos radicais e insatisfeitos da cidade. Qaradawi havia atacado virtualmente toda a clientela política que Livingstone cultivava, dos judeus a gays e feministas.
O clérigo aparentemente havia sido conivente inclusive com atentados suicidas, matança de civis e decapitações no Iraque. Comprovando seu caráter combativo, porém, o prefeito se recusou a recuar. Livingston sempre se considerou acima do establishment político, externando posições e começando polêmicas que perturbavam seus adversários mas muitas vezes anteciparam mudanças no cenário político. Brigou com o Partido Trabalhista, foi eleito como independente e readmitido no ano passado.
Nos anos 80, foi um ardoroso defensor de mais direitos para minorias, gays e mulheres, coisas que hoje constam na maioria das plataformas políticas centristas na Grã-Bretanha.
Livingstone batalhou para equilibrar sua forte posição pró-imigrantes e seus apelos a jovens muçulmanos, com a necessidade de combater o terrorismo e manter a segurança pública, resistindo a uma legislação antiterror mais rígida para evitar uma alienação maior dos muçulmanos jovens. Numa entrevista à rede árabe Al-Jazira em maio, disse que o número de muçulmanos radicais na Grã-Bretanha não justificava medidas duras.
Seja qual for a razão para o atual comportamento discreto de Livingstone, não se trata de uma intimidação pela mídia. Ele é um orador brilhante que adora aparecer. O secretariado do prefeito de Londres não controla os serviços de emergência. Por isso, o prefeito não pode agir como comandante da cidade. Tampouco parece provável ver Livingstone competindo com políticos nacionais ou com a família real, cuja influência na cidade é grande. As pessoas têm sido cuidadosas para não tentar explorar o fato politicamente.