Título: G-4 e africanos não fecham acordo sobre Conselho
Autor: Paulo Sotero
Fonte: O Estado de São Paulo, 18/07/2005, Nacional, p. A9

NOVA YORK - Foi inconclusiva e pouco promissora a reunião que os ministros das relações exteriores do Grupo dos Quatro (G-4), formado por Brasil, Japão, Alemanha e Índia, tiveram ontem com representantes de 13 nações africanas para tentar conciliar as diferenças entre as suas propostas divergentes sobre como alcançar o objetivo comum de ampliar o Conselho de Segurança (CS) das Nações Unidas para que o órgão passe a representar com mais equilíbrio a realidade internacional. Formado por 15 países, 5 com assentos permanentes e direito a veto, o CS reflete a realidade de 1945, quando a ONU foi criada. Os cinco membros permanentes - Estados Unidos, Rússia, China, Inglaterra e França -, são os vencedores da Segunda Guerra Mundial.

O G-4 quer expandir o Conselho para 25 países, com assentos permanentes sem direito a veto para 6 dos 10 novos membros - eles próprios, mais 2 africanos. A União Africana, que representa 54 países, propõe o mesmo número de novos membros permanentes, mas insiste no direito a veto e pleiteia mais um membro não-permanente.

A decisão sobre se e como reformar o CS depende da anuência de dois terços da Assembléia-Geral da ONU - 128 dos 191 países-membros.

Os EUA, que apóiam a ascensão apenas do Japão e de "mais um país ou algo assim", criticaram duramente na semana passada a iniciativa do G-4. Todas as indicações são de que a Índia seria o segundo candidato americano. Já a China rejeita terminantemente a ascensão do Japão e já classificou de "perigosa" a decisão do G-4 de forçar a discussão do assunto.

'SIMILARIDADES '

Depois de três horas de discussões na sede da missão permanente da Índia na ONU, os chanceleres divulgaram um comunicado afirmando que "identificaram mais similaridades do que diferenças" em suas propostas e manifestaram "determinação em superar as diferenças" até um novo encontro, na próxima segunda-feira, em Genebra.

As dificuldades para se alcançar um entendimento ficaram patentes na própria coreografia da apresentação dos resultados da reunião. O chanceler do país anfitrião, o indiano Natwar Singh, apareceu primeiro para dizer que o encontro fora "útil e construtivo", mas se desculpou por não poder ficar, pois estava de viagem marcada. Segundo fonte diplomática brasileira, Singh teria uma conversa com a secretária de Estado Condoleezza Rice sobre a reforma do CS.

Terminada a reunião, quase uma hora depois, o chanceler brasileiro, Celso Amorim, e seus colegas da Alemanha, Joschka Fischer, e do Japão, Nobutaka Machimura, surgiram com o ministro das Relações Exteriores da Nigéria, Olu Adeniji, e outros representantes africanos. Eles deram versões destoantes sobre a reunião.

"Fizemos algum progresso", disse Adeniji, que preside a União Africana. "Mas vocês precisam entender que foi o primeiro encontro e a primeira vez que tivemos a oportunidade de discutir os dois textos. Nos próximos dias teremos quantas reuniões forem necessárias." Adeniji acrescentou, no entanto, que a UA não esperará por um entendimento e formalizará sua proposta hoje.

Nesse ponto, o chanceler brasileiro interveio. "Esse foi um encontro, depois de um que tivemos em Londres, no qual havia apenas um representante da África. Foi um grande passo, pois comparamos as resoluções, as diferenças e demos o passo concreto de estabelecer um mecanismo para encontrar, de uma forma criativa, imaginativa, maneiras de evoluir para uma posição comum." O chanceler acrescentou que "é muito claro para o G-4 que, sem a União Africana, não haverá nenhuma resolução."

Embora tenha-se manifestado confiante num acordo com a UA, Amorim admitiu: "Se não ocorrer, vamos ter de reexaminar." Numa indicação de que poderá ser forçado a recuar em relação ao tema que, por sua recomendação, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva colocou no topo das prioridades da política externa, Amorim disse: "Temos de estar prontos para lidar com as diferentes situações."