Título: Ultraconservador é eleito no Irã
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Fonte: O Estado de São Paulo, 25/06/2005, Internacional, p. A16
Equipe de Rafsanjani admitiu a derrota para Mahmoud Ahmadinejad, prefeito de Teerã, apoiado pela Guarda Revolucionária
Numa grande virada na política iraniana, o candidato ultraconservador Mahmoud Ahmadinejad, de 49 anos, venceu ontem o segundo turno da eleição presidencial do Irã. Horas depois de iniciada a contagem dos votos, assessores do conservador moderado Akbar Hashemi Rafsanjani, de 70 anos, reconheceram a derrota, endossando os primeiros dados da apuração, que apontavam 61,2% dos votos para seu rival. O resultado é uma grande derrota para os reformistas, que se alinharam no segundo turno com Rafsanjani, na esperança de pelo menos manter a pequena abertura no regime clerical conseguida pelo atual presidente, Mohamad Khatami. Também pode significar o aumento da tensão entre EUA e Irã, já que Ahmadinejad deixou claro que não considera importante melhorar os laços com Washington e não pretende ceder às pressões do Ocidente na questão nuclear (ler ao lado).
Ahmadinejad é um político fortemente ligado aos radicais alinhados com os princípios da Revolução Islâmica (1979), com grande apoio na Guarda Revolucionária e nas milícias que reprimem os desvios das normas religiosas. Prefeito de Teerã, ele ganhou o apoio das camadas mais pobres e religiosas.
Rafsanjani, de 70 anos, que presidiu o país entre 1989 e 1997, defendia a abertura da economia e a continuidade das reformas no plano social. Teve forte apoio de reformistas, da classe média e do empresariado, mas isso não foi suficiente.
Depois de uma semana de campanha feroz, os iranianos lotaram ontem as seções eleitorais, forçando as autoridades a prorrogar por quatro vezes o horário de fechamento das urnas. Apurados 8,6 milhões de votos (menos de 25% do total), Ahmadinejad tinha 61,2%, segundo a agência Reuters, citando fontes no órgão supervisor da contagem. Estavam habilitados a votar cerca de 47 milhões de iranianos e a perspectiva era de que o comparecimento tenha superado amplamente os 63% no primeiro turno.
Imediatamente depois do início da divulgação dos primeiros resultados, o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, baixou uma ordem proibindo os partidários dos dois candidatos de celebraram a vitória nas ruas. "Dizem que os quartéis-generais de ambos os candidatos estão preparando celebrações e o anúncio de sua vitória. Orientamos ambos os lados, como também o Ministério do Interior, a impedir todo anúncio prematuro", disse o aiatolá, no comunicado.
Longas filas nas seções eleitorais demonstravam a ampla mobilização em função da disputa entre ultraconservadores e reformistas. A baixa abstenção favoreceu Ahmadinejad. Eleitores compareceram maciçamente às urnas na empobrecida periferia de Teerã, reduto de Ahmadinejad, que prometeu combater a corrupção e dividir de maneira mais justa os frutos da riqueza do país. O Irã é o quarto maior produtor de petróleo do mundo. Mesmo com o preço do barril a US$ 60, o desemprego é um dos problemas que mais preocupam os eleitores iranianos.