Título: Delúbio assume responsabilidade sozinho pelo caixa 2 e irrita CPI
Autor: Eugênia Lopes e Luciana Nunes Leal
Fonte: O Estado de São Paulo, 21/07/2005, Nacional, p. A8
Protegido por um habeas-corpus que impedia sua prisão e permitia que respondesse apenas às perguntas de sua escolha, o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares assumiu ontem, durante seu depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Correios, toda a responsabilidade pelo caixa 2 mantido por seu partido. Sem convencer os parlamentares da CPI, Delúbio garantiu que ninguém mais no PT sabia de seu acordo com o empresário Marcos Valério Fernandes de Souza, que pegou emprestado R$ 39 milhões em bancos e os distribuiu a aliados e petistas indicados pelo ex-tesoureiro. O depoimento de Delúbio levantou mais dúvidas do que trouxe esclarecimentos. "Me reservo o direito de ficar calado. Os nomes das pessoas que pegaram esses recursos vão aparecer ao longo das investigações. Temos de ter paciência para encontrar a destinação dos R$ 39 milhões", disse Delúbio. No depoimento, ele confirmou ter entregue dinheiro para o deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ). Mas garantiu que não eram os R$ 4 milhões informados pelo deputado nem foram entregues em malas.
"Os numerários não são esses e a forma também não", afirmou o ex-tesoureiro, ao garantir que nunca pagou mesada a parlamentares. "O PT não orienta a compra de votos." Delúbio também isentou qualquer dirigente do partido de ter conhecimento dos empréstimos feitos por meio de Marcos Valério, a quem conheceu em meados de 2002. Assegurou que o deputado José Dirceu (PT-SP) não sabia de nada, apesar de o empresário ter dito em depoimento à Procuradoria-Geral da República que o ex-ministro da Casa Civil sabia da negociação. "Nunca tratei desse assunto com o José Dirceu", disse.
CALADO
O ex-tesoureiro do PT contou ainda que cabia a Marcos Valério fazer os pagamentos a pessoas por ele indicadas: "A relação era direta com o Marcos Valério", afirmou. "Não fiz nenhum pagamento de recursos. O Marcos Valério é que providenciava o pagamento."
Aos deputados e senadores, o ex-tesoureiro do PT não quis explicar como vai pagar os empréstimos feitos por Marcos Valério junto ao Banco Rural e ao BMG para o partido, que totalizam R$ 39 milhões. "Me reservo ao direito de ficar calado", repetiu Delúbio, diante dessa e de outras inúmeras questões. Disse ainda que nunca intermediou contato das empresas de Marcos Valério com estatais.
"As empresas do Marcos Valério não têm recursos públicos. O Marcos Valério sempre solicitou dos partidos da base aliada a ampliação de suas agências para o marketing eleitoral", afirmou. Segundo Delúbio, Marcos Valério "tinha grande experiência em arrecadação de recursos para outros partidos". Mas o ex-tesoureiro assegurou: "Nunca perguntei quem ele apoiou no passado. Em 1998, ele deu ajuda a outros partidos."
PATRIMÔNIO
Depois de se recusar a responder perguntas sobre seu patrimônio, por orientação de seu advogado Arnaldo Malheiros, Delúbio cedeu aos apelos do deputado Jorge Bittar (PT-RJ), que até o ano passado era o secretário-geral do PT. O ex-tesoureiro disse que tem um patrimônio modesto: R$ 163 mil em três contas bancárias e um carro comprado este ano no valor de R$ 71 mil. Segundo ele, sua renda familiar mensal é de cerca de R$ 13 mil.
A dívida oficial do PT, disse Delúbio, é de R$ 20 milhões, conforme consta nas contas do partido aprovadas em dezembro de 2004. Disse ainda que o partido comprou pelo sistema de leasing do Banco do Brasil os computadores para todos os diretórios do PT no País. O ex-tesoureiro afirmou que, por essa compra, o PT paga cerca de R$ 800 mil mensais.