Título: Quimeras aterrorizam favela de Porto Príncipe
Autor: Adrien Jaulmes
Fonte: O Estado de São Paulo, 26/06/2005, Internacional, p. A23
Ex-menino de rua protegido por Aristide, Dread Wilmé espalha violência em Cité Soleil
PORTO PRÍNCIPE - Naquele dia, Paul-Henri Mourral tomou a estrada ao volante de um carro novo. No dia 7, uma terça-feira, esse hoteleiro francês deixou a capital, Porto Príncipe, em direção a Cap-Haitien. Ele é dono há anos de um dos principais estabelecimentos dessa cidade do norte do país, onde é também cônsul honorário da França. Quando contornava a favela de Cité Soleil, vasta favela do norte de Porto Príncipe, seu carro se tornou alvo de gângsteres. O que se seguiu só pôde ser reconstituído por testemunhas. Talvez ferido a tiros, Mourral foi obrigado a parar. Foi arrancado do carro e tentou estabelecer um diálogo com os assaltantes, que pareciam interessados apenas no carro, ignorando sua condição de cônsul honorário. Mas um segundo bando chegou em seguida. Os recém-chegados pertenciam ao grupo de um matador: Dread Wilmé. Nu, Mourral foi jogado ao chão, crivado de balas com uma precisão sádica e largado ali mesmo. Com o abdome rasgado, ainda estava vivo quando foi resgatado pela Cruz Vermelha. "Estamos quase certos de que Dread Wilmé participou pessoalmente do assassinato", dizem fontes próximas da investigação. Aos 27 anos, Emmanuel Wilmé, apelidado Dread em referência a seus "dreadlocks", as tranças de inspiração rastafari, é um dos mais temidos chefes dos quimeras (referência às bestas da mitologia grega formadas por partes de leão e cabra), as antigas milícias do ex-presidente Aristide.
Menino de rua em Cité Soleil, ele teria sido recolhido pelo ex-presidente haitiano que, nos anos 80, se ocupava de obras de caridade nessa favela. Tornou-se um matador a serviço de seu benfeitor. Ele é hoje um dos homens mais temidos de Porto Príncipe. "Sabemos que está na cidade", diz uma fonte policial. "Sua gangue tem entre 50 e 100 pessoas bem armadas com submetralhadoras Uzi israelenses. Mas Dread Wilmé é capaz também de mobilizar muitas centenas de partidários, geralmente adolescentes de Cité Soleil, que usa como bucha de canhão." Tendo permanecido fiel a Titide, o apelido do ex-presidente haitiano para seus partidários, Dread Wilmé semeia o terror em Cité Soleil - favela sem água nem eletricidade onde se espremem em miséria absoluta mais de 300 mil pessoas. "Na semana passada, seu bando cercou o mercado Tête Boeuf, relata a mesma fonte. Os quimeras fecharam as grades desse grande mercado de concreto que abriga centenas de pequenas bancas e puseram fogo em tudo. Nos escombros ficou uma dezena de cadáveres carbonizados."
Os funcionários da ONU destacados para auxiliar uma polícia haitiana despreparada e contando em suas fileiras com um bom número de ex-quimeras admitem: "É difícil obter informações sobre Dread, porque ele é também um sacerdote vudu, culto poderoso no Haiti. Enterra pessoas vivas e come os restos de suas vítimas. Depois de ter matado um chefe rival, ele arranca o coração, mas também os olhos, para evitar que o morto encontre seu assassino, e os tendões dos calcanhares, para impedir que o zumbi o alcance."
De seu feudo de Cité Soleil, labirinto de ruelas atulhadas de lixo e dejetos inacessível aos veículos das unidades brasileiras da ONU - de todo modo pouco propensas a caçar os quimeras -, Dread Wilmé ameaça agora à segurança de toda a população de Porto Príncipe. Um membro da Minustah desdobra um mapa de Porto Príncipe. "Veja: Cité Soleil se acha num entroncamento rodoviário estratégico para a capital, e, portanto, para todo o país."
Eixos nevrálgicos atravessam ou contornam a favela: o porto e o terminal petrolífero, por onde chega o combustível. Boa parte do abastecimento entra pela estrada do Aeroporto Toussaint-Louverture, de Porto Príncipe. A estrada que liga a cidade ao norte do país também está sob controle dos quimeras.
"Depois da queda de Aristide, no ano passado, os legionários franceses e os marines americanos tinham recuperado o controle de Cité Soleil. Hoje, mais da metade da cidade está diretamente nas mãos das gangues. É preciso blindados para atravessar Cité Soleil, onde quase certamente se seria apanhado", diz esse membro da Minustah, um tanto desiludido.