Título: Em Londres, bicicleta é 'in' e mochila é 'out'
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Fonte: O Estado de São Paulo, 23/07/2005, Internacional, p. A14

Mesmo numa hora dessas, cheia de atentados terroristas, os britânicos não deixam de ter suas tiradas de bom humor. Nas intermináveis conversas sobre os atentados terroristas, fala-se que neste verão é 'in' ter bicicleta e 'out' carregar mochilas. Os comentários bem-humorados, na verdade, refletem uma mudança na paisagem e no comportamento da capital londrina ocorrida desde os atentados de 7 de julho e reforçada pela segunda dose de terror de quinta-feira.

Por mais que tenham adotado uma surpreendente postura de calma e coragem diante das explosões, muitos londrinos mudaram, dentro do possível, alguns de seus hábitos.

No caso das bicicletas, o salto nas vendas nas últimas duas semanas acompanhado por uma rápida vistoria nas ruas do centro financeiro da capital, a City, comprova que o número de ciclistas, inclusive engravatados, cresceu muito.

As calçadas também andam mais congestionadas, embora isso possa ser explicado parcialmente pelo verão, que segundo os próprios britânicos, pode durar algumas horas ou poucos dias, no máximo.

Andar de metrô ou trem nesses dias, se possível, é desaconselhável por motivos óbvios. O calor no "tubo" fica insuportável quando a temperatura fora ultrapassa os 30 graus.

Táxi seria perfeito, mas seus preços são proibitivos para a maioria dos londrinos.

No caso das mochilas, tão na moda nos últimos anos, exemplos quantitativos ainda não estão disponíveis.

Mas desde que se soube que os terroristas as utilizaram para carregar os explosivos, elas se tornaram num apetrecho que pode potencialmente causar problemas e constrangimentos.

Até o dia seis de julho, as mensagens gravadas no metrô solicitavam aos passageiros uma atenção especial a malas ou pacotes abandonados (além do clássico mind the gap - cuidado com o vão - repetido a cada parada).

Mas agora o recado é mais subjetivo: "Se você ver alguém agindo suspeitamente, contate um agente do metrô". Ou seja, se alguém cisma que você está agindo de forma estranha, seja lá o que isso significa, e ainda por cima carrega uma mochila, é problema na certa.

Basta se pegar um metrô ou ônibus, mesmo num bairro mais afastado do centro da capital londrina como Putney, para se constatar que há elevado clima de desconfiança no ar.

Ao entrar num vagão você se sente inspecionado por alguns dos passageiros. Na estação seguinte, será sua vez de inspecionar os novos companheiros de viagem.

Psicólogos comportamentais acreditam que esse clima de medo, com algumas pitadas de paranóia, deverá gradualmente se abater caso não ocorram novos ataques, e aconselham a população a manter sua rotina.

Segundo eles, os londrinos vão aprender a conviver com essa nova ameaça. Admitem, no entanto, que para os mais atemorizados, uma bicicleta não tem contra-indicações.