Título: Presidente retoma corpo a corpo com populares
Autor: Vera Rosa
Fonte: O Estado de São Paulo, 25/07/2005, Nacional, p. A4
Na 10.ª Festa dos Cegonheiros, Lula desce do palanque para beijos e abraços
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fugiu do palanque ontem - na verdade um balcão isolado dos outros convidados - e fez questão de circular entre 3 mil caminhoneiros na 10.ª Festa dos Cegonheiros, em São Bernardo do Campo, seu berço político. Evitou referências à crise que assola o governo e o PT, mas o discurso do presidente do Sindicato Nacional dos Cegonheiros, Aliberto Alves, antes de Lula, deu o tom: "Esse pessoal aqui vai estar junto com você se precisar. Vamos para a rua ajudar esse País a continuar a andar." Lula distribuiu autógrafos, tirou fotos, mas o corpo a corpo entre os caminhoneiros durou pouco. Houve empurra-empurra e, com medo de criar confusão, não passou mais do que 15 minutos no galpão aberto da Estância Alto da Serra. Perguntado várias vezes se estaria preocupado com as denúncias do publicitário Marcos Valério, Lula não respondeu.
Depois de ouvir o apelo da primeira-dama, Marisa Letícia, e dos seguranças, o presidente retornou ao balcão e pediu desculpas por não poder cumprimentar os convidados em cada mesa. Em seguida, Lula passou o microfone para o compositor Alex Sandro Carvalho Macedo, explicando que atendia a um pedido. "Ele disse que tinha um sonho de cantar aqui, então vai cantar."
O tema da música? Corrupção. "Caras de pau, subestimaram o governo federal e a Justiça agora está matando a pau os que abusam do poder", cantou Macedo. "Caras de pau, estão nas garras da polícia federal, mas saibam logo que vocês agiram mal, vocês não têm para onde correr." Depois de curtir seus minutos de fama, Macedo negou que tivesse contado antes ao presidente o teor da música. "Caras de pau são os que fazem coisas erradas e ficam negando", afirmou o compositor de 25 anos que "vive de bicos". Lula, insistiu, é "perseverante, correto."
RUAS
Em seu discurso, o presidente do sindicato destacou acreditar na honestidade de Lula. "Temos certeza que o que está acontecendo é porque tem democracia." Antes, já havia corrupção e ela era encoberta, disse Aliberto Alves. Questionado se apoiaria o presidente na hipótese de uma tentativa de impeachment, Alves afirmou que o sindicato o defenderá em qualquer circunstância porque acredita na sua inocência. "O Lula está um pouco triste, chateado pelo que está acontecendo, mas acha que as coisas vão melhorar", contou. "Ele disse que não encobre corrupção e entende que quem deve vai pagar, mesmo que seja no partido dele."
À platéia, Lula citou as realizações do governo na área dos transportes e lembrou de sua atuação como sindicalista. Fugiu da política, só não poupou os antecessores. "Herdamos mais de 38 mil quilômetros de estradas praticamente intransitáveis. Às vezes fico me perguntando o que era feito nesse País que nem a manutenção das estradas era feita," discursou, prometendo entregar no ano que vem, as obras de duplicação da Fernão Dias e da BR 116.
O ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, foi além: "Fazendo o investimento que está se fazendo pela primeira vez, nós em três anos recuperaremos os 58 mil quilômetros da malha rodoviária federal." O mandato do presidente Lula termina em 2006. Nascimento anunciou que até o fim deste ano o processo de concessão de todas as rodovias federais no Estado estará concluído.