Título: CPI suspeita de nova operação Uruguai
Autor: Fausto Macedo
Fonte: O Estado de São Paulo, 29/07/2005, Nacional, p. A10

BRASÍLIA - A conexão entre o Banco Rural e o empresário Marcos Valério Fernandes de Souza, suposto condutor do mensalão, usou laranjas e empresas fantasmas para promover remessas ilegais e lavagem de dinheiro em paraísos fiscais. A suspeita é da CPI dos Correios, com base na análise de documentos referentes à Guaranhuns Empreendimentos Intermediações e Participações S/C Ltda., empresa que mantém 99% de seu capital em poder da uma offshore sediada no Uruguai. Rastreamento do Banco Central que chegou à CPI revela que R$ 7 milhões foram movimentados pela Guaranhuns entre 2003 e 2004 por meio de uma conta no Rural, agência de Brasília - mesmo endereço onde o mensalão foi servido a parlamentares e assessores. Os valores chegaram à Guaranhuns a partir de cheques emitidos por empresas de Valério.

A CPI trabalha com a hipótese de que a Guaranhuns é uma nova versão da Operação Uruguai - montada pelo esquema PC no governo Fernando Collor - com a diferença de que agora os ativos foram internados naquele país e podem não ter sido repatriados.

O levantamento sobre recursos da Guaranhuns é parcial. A CPI acredita que o exame da montanha de extratos bancários que abarrotam a sala 13 no subsolo do Senado vai apontar valores mais elevados.

SÓCIO ESTRANGEIRO

A offshore chama-se Esfort Trading S.A. No Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica a Esfort aparece como "sócio estrangeiro" da Guaranhuns, criada em 8 de janeiro de 1999. José Carlos Batista, com 1% das cotas, consta como procurador da empresa. "O que se verificou é que ela (Guaranhuns) não existe", declarou o senador tucano Álvaro Dias (PR), autor de requerimento ao BC para que todas as operações do Rural sejam abertas.

A CPI vai requisitar à Polícia Federal que localize e tome o depoimento de José Carlos Batista. O endereço da Guanharuns, no município de Santana de Parnaíba (Grande São Paulo), segundo registros oficiais, não existe. Para o senador tucano, "ficou evidente que a Guanharuns é apenas uma empresa de fachada, criada para viabilizar a evasão de divisas".

Dias avalia que as remessas para o Uruguai "já configuram crimes contra o sistema financeiro nacional e a ordem tributária, sonegação e lavagem de dinheiro". O senador define a conexão como "algo muito grave, uma empresa de fantasia que faz a ponte para o exterior, é a nova Operação Uruguai".

Ele vê "incrível semelhança" entre a Guaranhuns e outros esquemas que o Congresso investigou nos últimos anos. Citou os esquemas PC Farias, dos Precatórios e do Banestado, que lançaram mão de laranjas e empresas fantasmas para envio de recursos a paraísos fiscais.

"Falta a origem, de onde veio esse dinheiro todo", anotou o senador. "Isso o Rural ainda não encaminhou, esse procedimento ainda é desconhecido. Números gerais, apenas, não interessam à investigação."

Ele aposta na quebra do sigilo telefônico. "As ligações do sr. Marcos Valério, os contatos que ele fez, vão esclarecer muita coisa, inclusive esse esquema da evasão." O mapa dos telefonemas dados e recebidos pelo empresário e outros envolvidos no esquema do mensalão está sendo preparado pelos técnicos convocados pela CPI.

Outros documentos de posse da CPI mostram vínculo do Rural com a Trade Link Bank, constituída nas Ilhas Cayman. O Rural mantém uma instituição no Uruguai. Uma conta comum em Nova York captou recursos da Trade e do Rural. Para Dias, essa conexão "precisa ser devidamente apurada".

APREENSÃO

A blitz da Polícia Federal no arquivo morto do Rural, nos dias 13 e 14, pode ter sido incompleta. O deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), relator da CPI, revelou-se surpreso ao examinar o auto de busca e apreensão que a PF apresentou. A operação foi realizada a partir do depoimento do ex-tesoureiro do banco José Francisco Rego. Ele contou à PF que Simone Reis Vasconcelos, diretora financeira da SMPB, indicava os nomes dos sacadores. Essa lista, que teria 120 nomes, poderia ser encontrada no arquivo do banco, em Belo Horizonte. "Isso vazou, evidentemente", disse o relator. "Nessa coleta de dados não apareceu a lista."

Serraglio verificou que uma equipe da Polícia Federal, acompanhada de integrantes do corpo jurídico do banco, foi ao Rural por volta de 16 horas do dia 13. Foi recolhida apenas uma parte dos papéis. À noite, os federais retornaram ao local e constataram que havia "grande volume" de caixas de documentos. A PF lacrou as caixas e retornou no outro dia.