Título: Presidente da Casa da Moeda levou R$ 2,6 milhões, revela lista de Valério
Autor: Sheila D'Amorim e Wilson Tosta
Fonte: O Estado de São Paulo, 03/08/2005, Nacional, p. A9

O ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil (BB) Henrique Pizzolato recebeu R$ 326,66 mil do empresário Marcos Valério, segundo relação apresentada pela diretora-financeira da SMPB, Simone Vasconcelos, durante depoimento à Polícia Federal esta semana. O dinheiro pago a Pizzolato foi incluído entre os R$ 2,676 milhões destinados ao presidente da Casa da Moeda, Manoel Severino, e entregue em 15 de janeiro de 2004, de acordo com as declarações da diretora. Severino teria recebido os três pagamentos restantes. O primeiro ocorreu em 19 de agosto de 2003 e somou R$ 100 mil. Outros R$ 750 mil foram repassados entre 26 e 30 de abril de 2004 e a maior quantia, R$ 1,5 milhão, em 4 de julho do ano passado. Pizzolato nega ter recebido os recursos e diz que não tem relações pessoais com Manoel Severino. "Só o conheço pela imprensa e nem sabia a função dele. Acho isso muito doido. Deve haver algum engano", reagiu o ex-diretor do BB, que se aposentou no auge das denúncias de que ele estaria envolvido no esquema de distribuição de recursos comandado pelo empresário mineiro Marcos Valério.

A saída de Pizzolato do BB fez parte de um processo de despartidarização da instituição e, hoje, por determinação do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, e do presidente do BB, Rossano Maranhão, todas as ações da diretoria de Marketing que era comandada por ele estão sendo auditadas. Até as secretárias que trabalhavam com Pizzolato foram trocadas.

Manoel Severino não quis se manifestar. Sua assessoria disse que não conseguiu encontrá-lo e ele não respondeu os recados deixados no seu celular. O dinheiro repassado ao presidente da Casa da Moeda seria destinado ao PT do Rio de Janeiro, Estado onde também vive o ex-diretor do BB. Segundo apurou o Estado, o dinheiro teria ido para vários candidatos, entre eles o deputado Jorge Bittar, que concorreu à prefeitura da capital e, hoje, participa das investigações da CPI dos Correios, que apura as relações do PT com Marcos Valério.

A agenda de Fernanda Karina Somaggio, ex-secretária do publicitário, registra vários encontros de Marcos Valério com o presidente da Casa da Moeda, em 2003. O primeiro registro associa Manoel Severino ao então tesoureiro do PT, Delúbio Soares. A anotação, referente a 20 de novembro, diz: "Ligar Manoel Severino Delúbio". Embaixo dos nomes a palavra "urgente". Manoel Severino é antigo conhecido do PT do Rio, onde fica a sede da Casa da Moeda. Ele foi secretário estadual de Articulação Governamental no governo de Benedita da Silva, é ligado ao ex-secretário de Comunicação do PT Marcelo Sereno e amigo do ex-assessor da Casa Civil Waldomiro Diniz.

O esquema de Severino com candidatos do PT no Rio teria ligação nacional e funcionou paralelamente ao diretório regional do PT que, oficialmente, ficou fora dos repasses. Na campanha de Bittar, o comando nacional do PT impôs o marqueteiro Nizan Guanaes, com o compromisso de pagar-lhe os serviços, mas interrompeu o pagamento em agosto.

A escolha de Guanaes foi do ex-tesoureiro do partido Delúbio Soares. "Ninguém está fora da possibilidade de ter recebido dinheiro na campanha", admitiu um ex-coordenador das campanhas petistas, sob anonimato. Na CPI dos Correios, Valério admitiu ter mantido encontros com Severino. Disse que os dois discutiram campanhas no Rio. O presidente da Casa da Moeda confirmou. Mas a única campanha petista que Valério assessorou oficialmente em 2004 foi a de Petrópolis.