Título: Reunião no BNDES pede ajustes na economia
Autor: Nilson Brandão Junior
Fonte: O Estado de São Paulo, 11/08/2005, Economia & Negócios, p. B4

O governo precisa fazer ajustes na política econômica que permitam reduzir os juros e desvalorizar o câmbio, para que o País consiga crescer, de forma sustentada, acima de 5% ao ano. Este foi o consenso de reunião, ontem, entre 12 economistas e diretores do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A principal proposta debatida foi a do déficit nominal zero. "O governo está aberto à discussão. Há um consenso de que é preciso criar condições para que os juros caiam rapidamente", disse o presidente do banco, Guido Mantega, ao fim do encontro. Segundo ele, depois do enrijecimento da política econômica, como forma de combate à inflação, desde o ano passado, "agora se espera que haja uma flexibilização da política monetária", já que a inflação vem cedendo, comentou.

Durante a coletiva de imprensa, o diretor de Planejamento do banco, Antônio Barros de Castro, disse que o Brasil está entrando em novo ciclo de expansão, mas reconheceu que o ano de 2005 é "frustrante", em relação às previsões para o ano. Ainda assim, explicou que o investimento está reagindo. "Considerar insuficiente um crescimento de 3,5% é legítimo. O País deseja crescer 5%, 6%", disse o vice-presidente do banco, Demian Fiocca.

Apesar das avaliações, Mantega disse que não há crítica no banco à condução da política econômica. Segundo ele, o banco está dando uma contribuição ao debate, importante porque "coloca a agenda do desenvolvimento na ordem do dia". Disse, ainda, que há interlocução permanente no governo.

Participaram do encontro, entre outros, Yoshiaki Nakano (FGV/SP), Júlio Sérgio Gomes de Almeida (Iedi), Antonio Corrêa de Lacerda (PUC/RJ), João Paulo dos Reis Velloso (Inae) e Ricardo Bielschowsky (Cepal). "O grande fator de restrição (ao crescimento) está no âmbito da política macroeconômica, concordando com a maioria das posições mostradas aqui", disse Lacerda.

Para Nakano, somente um crescimento do País acima de 6% ao ano seria capaz de interromper o avanço do desemprego. A maior geração de trabalho ajudaria a reduzir a pobreza do País. Segundo ele, o Brasil "adotou integração à economia global que privilegia o financeiro em detrimento à produção", desde o início da década passada.

"Passamos a ter uma política macroeconômica punitiva e, infelizmente esta política não mudou", comentou Nakano. O economista, defensor do déficit nominal zero, a exemplo do deputado federal Delfim Netto (PP/SP), afirmou que a proposta "faz muito sentido". Segundo o presidente do BNDES, o objetivo central da proposta é baixar os juros, "um objetivo comum da Nação".

"A questão é fazer isso de forma responsável", ponderou Mantega. Ele disse que "concorda em parte e discorda em parte" da proposta. Na sua avaliação, deve-se fazer um ajuste fiscal mais forte, que deve passar pela redução dos gastos de custeio, sem prejudicar os investimentos. "Se implicar a redução do investimento, eu discordo."