Título: Argentina agora reclama da invasão das toalhas
Autor: Ariel Palacios
Fonte: O Estado de São Paulo, 11/08/2005, Economia & Negócios, p. B9

A invasão de produtos brasileiros acaba de entrar até nos banheiros das residências argentinas. Depois da avalanche de geladeiras, fogões, máquinas de lavar roupa, televisores, calçados, peças de vestuário e até autopeças brasileiras, atualmente, a maioria dos habitantes da Argentina seca mãos e corpos com toalhas Made in Brazil. Reunidos na Câmara de Produtores de Toalhas, os fabricantes argentinos acusaram ontem os empresários brasileiros de querer dominar o mercado. Em um indignado comunicado, a Câmara afirmou que a Associação Brasileira de Indústrias Têxteis (Abit) teria proposto um acordo que daria aos empresários brasileiros 70% do mercado de toalhas argentino. A participação brasileira é limitada a 60% atualmente.

"A insólita iniciativa dos brasileiros implicaria não somente abandonar qualquer projeto de investimentos, mas também nos levaria a reduzir mais ainda a produção. Nossa postura na negociação, em troca, é a de alcançar um acordo justo, no qual as importações não superem 50% do mercado nacional", declarou o presidente da Câmara, Ariel Yaquira.

Os empresários argentinos, junto com a Fundação Pró-Tejer (um ativo lobby empresarial, com grande peso na mídia) e os trabalhadores do setor, reunidos na Associação Operária Têxtil (AOT), alegam que as toalhas brasileiras chegam ao país com preços 20% inferiores aos dos similares nacionais.

Segundo a Câmara, desde 2002 a importação de toalhas brasileiras aumentou em média 148% por ano. Os empresários dizem que, enquanto em 2002 as vendas brasileiras foram de 626 toneladas, em 2004 subiram para 3.863 toneladas.

A AOT argumenta que o aumento da presença brasileira no mercado de toalhas argentino levará as empresas a reduzir a produção nacional e, conseqüentemente, a demissões.

Do lado brasileiro, os empresários costumam argumentar que não é correto comparar as vendas de 2004 com 2002, ano em que a Argentina estava mergulhada na pior crise financeira, social e econômica de sua história e praticamente não importava nenhum produto.

Segundo dados da consultoria Abeceb.com, vinculada ao Centro de Estudos Bonaerenses (CEB), o volume das vendas brasileiras atuais é inferior ao dos anos antes da crise. É o caso de 1999, quando a Argentina comprou 4.114 toneladas de toalhas do Brasil. Ou 2000, que marcou o recorde, com 4.841 toneladas. Em 2001, o volume de toalhas vendido ao mercado argentino foi de 4.102 toneladas.

Isso indicaria que as reclamações argentinas não passariam do tradicional esperneio para pressionar o governo do presidente Néstor Kirchner a adotar medidas protecionistas contra o Brasil.